sexta-feira, 30 de outubro de 2020

SOBRE A MORTE E O MORRER: VIVÊNCIA DO LUTO EM TEMPOS DE PANDEMIA

No impedimento de se vivenciar a importante etapa do luto, precisamos pensar como contribuir para que as pessoas possam vivenciar essa dor do luto, apesar dos condicionamentos pandêmicos (Simeon Muller / Unsplash)

Uma reflexão sobre a finitude humana em um momento de distanciamento social.


A morte é o maior dos dramas da existência. Indiscutivelmente, todos nós iremos nos defrontar com ela: é o limite último de nosso existir nesse mundo. Mesmo sabendo que é um condicionamento certeiro, ela continua sendo um drama para nós. 

Todas as experiências que fizemos, até então, com o morrer, são aquelas rupturas (dolorosas e espantosas) com os que amamos, com os que conhecemos, com os que ouvimos dizer. Nós, mesmos, experimentaremos esse ato derradeiro uma única vez.

Todos e todas temos sede do infinito. A morte e o morrer são dramáticos porque são o sinal mais efetivo e radical de nossa finitude. Quando alguém que amamos morre, sofremos duas vezes: pela ruptura da presença e pelo anúncio que essa ruptura traz, o de que nosso destino é o mesmo, sem sabermos quando e como. Apesar da dimensão dramática e angustiante, podemos crescer na consciência de que o inevitável não precisa, necessariamente, ser uma experiência esvaziada de sentido.

Por ser uma das temáticas mais latentes e fortes que acompanham toda pessoa humana, a morte e o morrer são tratados com bastante atenção pelas religiões. Cada uma à sua maneira contribui para ajudar seus fiéis e adeptos a compreender a morte e o morrer, de modo a atribuir sentido para essa dramática experiência. E essas tentativas de atribuir sentido à morte e ao morrer acabam por jogar luz sobre o modo como a vida é vivida.

No calendário litúrgico católico, duas celebrações estão unidas de modo umbilical: trata-se da Festa de Todos os Santos e Santas de Deus, em 1º de novembro, e Fiéis Defuntos, no dia seguinte. Ambas apontam para o mistério da páscoa de Cristo: os que morreram na fé gozam da comunhão com Deus, revestidos por sua santidade. E, segundo cremos, os vínculos afetivos com os que aqui ainda permanecemos, não se rompem, pois nossa comunhão ultrapassa os limites de espaço e tempo.

Motivados por essas duas ocasiões litúrgicas, sobretudo a dos Fiéis Defuntos, dedicamos o Dom Especial desta semana a meditar sobre uma questão bastante latente em nossa atualidade de pandemia de Covid-19, na qual milhares de rostos e nomes partiram de modo abrupto e doloroso. No impedimento de se vivenciar a importante etapa do luto, com as práticas costumeiras de velório e ritos fúnebres, precisamos pensar como contribuir para que as pessoas possam vivenciar essa dor do luto, apesar dos condicionamentos de nosso tempo de pandemia.

Como primeiro artigo, temos Na oração, nossa comunhão com os que participam da santidade de Deus, de Lorena Alves Silveira, no qual reflete sobre a importância da oração como modo de manter viva a comunhão com aqueles que nos precederam no convívio com Deus. Daniel Reis, no artigo Consolai-vos, propõe uma leitura de como o tradicional ritos das Exéquias se traduz como serviço pastoral de consolo às famílias enlutadas. Por fim, refletindo efetivamente sobre práticas de como lidar com o luto nesse momento em que estamos enfrentando, Camila Marçal propõe o artigo Luto e Covid-19: como se despedir na ausência de ritos?

Boa leitura!

Domtotal

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas 'Imprevisto' (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

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