domingo, 8 de novembro de 2020

AMOR POLÍTICO E AS ELEIÇÕES

Debate de candidatos à Prefeitura de São Paulo na TV Bandeirantes em 1º de outubro (Filipe Araujo /Fotos Publicas)
Um dos critérios para a escolha de um candidato pode ser o amor político, que gera a caridade social

Depois de 31 anos o eleitorado brasileiro volta as urnas em um 15 de novembro. Desta vez para eleger prefeitos e vereadores de 5.568 municípios. A mudança da data fixada pela Constituição de 1988 no primeiro e no último domingo de outubro, foi motivada pela pandemia. Em 1989 foi escolhido o primeiro presidente da República pelo voto direto, depois de quase três décadas de ditadura. Na época o cenário era de empolgação cívica, debates acalorados e muitos comícios.

De lá para cá muita coisa mudou. A empolgação deu lugar ao desinteresse. Os debates deixaram as TVs e ganharam espaço em outras mídias. As fakes news ainda circulam e se multiplicam. Comícios, nem pensar. As lives foram a alternativa. Contudo, os discursos de campanha pouco mudaram, se limitam a troca de acusações. Onde estão os projetos e programas de governo? Além das promessas, qual é o compromisso real com as cidades e com o povo?

A distância do mundo real, dos discursos dos candidatos, faz os políticos caírem no descrédito. Cidades são constituídas de pessoas. Mulheres, homens, LGBTI, negros e brancos, trabalhadores e estudantes, crianças e idosos, religiosos e ateus, todos convivendo na sociedade civil. A comunidade política deve estar a serviço dessa comunidade. Esse também é o fundamento da democracia. Nada melhor que uma eleição para recuperar a credibilidade da política, construir um novo modelo de sociedade e lutar por dias melhores. Mudança requer participação.

Impressiona o número de candidatos. Em todo Brasil são mais de 500 mil. Em Belo Horizonte 15 candidatos disputam o cargo de prefeito. 41 cadeiras da Câmara Municipal são disputadas por 1.549 postulantes. Como identificar aqueles que realmente estão capacitados a trabalhar pelo bem da cidade? Existem muitos lobos em pele de cordeiro. Discursam para os mais vulneráveis, se aproveitam deles para alcançar seus próprios interesses ou dos grupos que os apoiam.

É crucial entender o contexto destas eleições. Uma pandemia com consequências que vão além das ordens sanitárias ou epidemiológica. As repercussões são sociais, econômicas, políticas e históricas. Os números preocupam: mais desemprego, moradores de rua, fome, violência doméstica contra mulheres, crianças, idosos e LGBTI. As mortes pela Covid-19 ultrapassam 160 mil e os infectados já se aproximam dos seis milhões. Descasos de um governo irresponsável. É preciso observar os resultados em cada cidade, e estar atento as propostas de políticas públicas de saúde. Papa Francisco insiste que é preciso um projeto comum, mesmo que o processo seja lento e difícil (Fratelli Tuti, 158).

É importante acertar nas escolhas. Superar desigualdades, em qualquer contexto, pode começar debaixo para cima ou do micro para o macro. Em Fratelli Tuti, Francisco ressalta que existem líderes capazes de interpretar o sentir do povo, a sua dinâmica e tendências. "O serviço que prestam, congregando e guiando, pode ser a base para um projeto duradouro de transformação e crescimento".

As eleições municipais podem ser o início de uma caminhada por dias melhores. Mas é preciso superar simpatias partidárias, amizades e interesses pessoais, o voto é responsabilidade social, deve ser consciente. Dedique um tempo ao estudo das propostas e trajetórias de cada candidato.

São muitos os critérios para avaliar o desempenho dos políticos. O amor político, que gera a caridade social é um deles. "Reconhecer todo o ser humano como um irmão ou uma irmã e procurar uma amizade social que integre a todos não são meras utopias.... Um indivíduo pode ajudar uma pessoa necessitada, mas, quando se une a outros para gerar processos sociais de fraternidade e justiça para todos, entra no 'campo da caridade mais ampla, a caridade política'... convido uma vez mais a revalorizar a política, que 'é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas de caridade, porque busca o bem comum'" (Fratelli Tuti, 180). Você pode ajudar alguém a atravessar um rio, mas o político pode aprovar um projeto para construir uma ponte. Pense nisso na hora de votar.

Votar em alguém só porque está liderando as pesquisas é, no mínimo, ingenuidade. Votar é escolher uma ideia de cidade condizente com a sua. Assuma a responsabilidade pelo político que ajudará a eleger. O voto significa uma permissão para que o candidato eleito tome decisões que você concordaria.

Quem vota com coerência nunca perde o voto. É preferível perder uma eleição à coerência.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016)

Domtotal

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