sexta-feira, 6 de novembro de 2020

CARDEAL DE 90 QUE FOI FEITO REFÉM É LIBERTADO EM CAMARÕES


Grupo separatista quer criar um Estado anglófono independente no oeste do país

O cardeal Christian Wiyghan Tumi (à esquerda) fala com o político John Fru Di durante diálogo nacional que visava aproximar os anglófonos dos francófonos em Camarões, 30 de setembro de 2019 (Stringer/AFP)

Atualizada às 12h17

O cardeal Christian Wiyghan Tumi, de 90 anos, sequestrado na quinta-feira (5) à noite no oeste de Camarões, foi libertado nesta sexta-feira (6) – informou o arcebispo de Douala, Samuel Kleda.

"O cardeal e seu motorista foram libertados há pouco. É um alívio, mas também é chocante saber que um cardeal de 90 anos foi mantido refém", disse Kleda por telefone.

Camarões é palco de um conflito sangrento entre o Exército e separatistas. Grupo pretende criar um Estado anglófono independente na região de Ambazonia, sudoeste do país.

O cardeal aposentado, arcebispo emérito de Douala e famoso em Camarões por suas incansáveis tentativas de mediação entre os separatistas anglófonos e o governo de Yuandé, foi libertado por seus sequestradores junto com seu motorista, confirmou um funcionário das autoridades locais, que pediu para permanecer anônimo.

Sequestro

O sequestro ocorreu na estrada entre Bamenda e Kumbo, perpetrado por um comando armado . Além do cardeal Tumi, foi raptado o rei de Kumbio, Fon de Nso, uma autoridade moral tradicional.

Elie Smith, um colaborador próximo ao cardeal, havia conseguido contactar os sequestradores por telefone e obter algumas informações: o responsável pela ação armada teria sido o general dos ambazonianos que se intitula Chaomao, um ex-pastor. Notícias também confirmadas por membros da família do rei de Kumbo.

As razões do sequestro podem ser encontradas no encorajamento dado pelo cardeal às crianças para irem à escola. Há alguns dias atrás, de fato, um grupo armado sequestrara alguns professores que tinham sido libertados ontem, 5 de outubro. No último dia 24 de outubro, oito crianças foram mortas num ataque armado à escola bilingue internacional Madre Francisca. O papa Francisco expressou o seu pesar por este triste evento, apelando para o fim da violência e pedindo a garantia da educação e do futuro dos jovens.

Reféns

As demais pessoas sequestradas junto com o cardeal e o motorista ainda estão sendo mantidas como reféns, conforme fontes ligadas ao governo. Segundo o responsável local, o prelado e seu motorista foram separados do restante do grupo, para o qual representantes da população local estão negociando a libertação.

Os rebeldes separatistas anglófonos armados fazem sequestros com frequência, incluindo de personalidades, desde o início deste conflito, há quase quatro anos. Esses sequestros geralmente terminam com a liberação relativamente rápida dos reféns, em troca de resgate, ou após negociações.

Embora não seja usual, algumas pessoas foram executadas, especialmente membros das forças de segurança, professores e civis acusados de colaborarem com o Estado. O governo sempre atribui estes atos, de autoria nunca reivindicada, a grupos separatistas.

Cardeal

O cardeal Tumi, nascido em 15 de outubro de 1930 em Kikaikelaki, na então paróquia de Kumbo, hoje diocese, como bispo e depois cardeal, esteve sempre na vanguarda das dificuldades do território situado no extremo norte dos Camarões, na fronteira com o Chade, quase esquecido pelas autoridades centrais, e da pobreza, à qual se somam as profundas divisões étnicas nesta área. Por ter promovido a paz após o início da crise no norte e sudoeste do país, e por ter lutado contra a discriminação contra a minoria de língua inglesa (cerca de 20% da população), o cardeal Christian Tumi recebeu o Prêmio Nelson Mandela em julho de 2019.

Ecclesia/Vatican News/Dom Total/AFP

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