quinta-feira, 12 de novembro de 2020

ELEIÇÕES E DIA MUNDIAL DOS POBRES

MST e Sindipetro-PR/SC organizam ação na periferia de Curitiba, entregando 400 cargas de gás de cozinha e 15 toneladas de alimentos frescos para os mais carentes (Giorgia Prates/Brasil de Fato)

Quando um povo abre mão de ter os melhores, passa dos medíocres aos piores

Até 2021, de acordo com estudos do Banco Mundial, 150 milhões de pessoas podem mergulhar na pobreza extrema. 82% dos novos pobres vivem no Brasil, ou seja, vivem com menos de 12 reais por dia. A meta do Banco Mundial é reduzir para 3%, até 2030, o percentual de pobreza no mundo.

Como podemos contribuir? "O encontro com uma pessoa em condições de pobreza não cessa de nos questionar. Como podemos contribuir para eliminar ou pelo menos aliviar a sua marginalização e o seu sofrimento?" O cristão é chamado a se envolver "para lhes dar voz, defendê-los e solidarizar-se com eles face a tanta hipocrisia e promessas não cumpridas".

Essa é a centralidade da mensagem do papa Francisco para o 4º Dia Mundial dos Pobres, celebrado em 15 de novembro, mesmo dia das eleições municipais. Oportunidade para 147,9 milhões de eleitores de contribuir com seu voto para começar a erradicar a pobreza, uma das maiores ameaças à dignidade humana. Sem ação política rápida, a taxa de pobreza extrema, em 10 anos, pode afetar 7% da população. Tudo começa na política.

"A omissão é o maior pecado contra os pobres" nos lembra o papa. E ressalta: "a política, segundo a doutrina social da Igreja, é uma das maiores formas de caridade, porque serve ao bem comum (...) um bom católico interfere na política". Fazer escolhas conscientes é fundamental, não só para erradicar a pobreza, também diz respeito ao bem comum, aos direitos sociais e à paz na comunidade.

Com o voto autorizamos alguém a governar em nosso nome. Além de votar, é preciso fiscalizar, acompanhar o trabalho do legislativo e do executivo. Está em jogo várias esferas da vida da população: transporte, saúde, educação, trabalho, moradia, entre outras.

No próximo domingo o eleitor vai escolher representantes para o legislativo e executivo municipal. O papel do vereador é criar e aprovar leis e principalmente fiscalizar o trabalho do executivo. O prefeito por sua vez deve executar as leis, propor planos de ação e administrar os interesses públicos. É preciso estar atento ao caráter do candidato, se não está envolvido em corrupção, se tem propostas concretas, se tem capacidade de administrar recursos públicos.

O voto é uma responsabilidade com aqueles mais necessitados do poder público: os pobres. Pense nos desempregados, no povo em situação de rua, nas lutas das mulheres, nas juventudes periféricas, nas crianças sem escola, nas famílias sem moradia, nos doentes sem assistência, nos discriminados por sua cor ou por sua sexualidade.

Não pense em seus interesses ideológicos, partidários e nas vantagens egoístas. Pense como seu voto pode ajudar os mais pobres de tua cidade. A pessoa humana é fundamento e fim da política. O envolvimento político do cristão deve se traduzir no serviço ao bem comum, mas principalmente dos pobres.

Democracia (participação de todos na res publica) deveria favorecer o governo dos aristós: dos melhores em caráter, em justiça, e os mais solidários com os pobres. Aristocracia no melhor sentido da palavra. Caso contrário, governarão os piores. "Uma pessoa má produz todo tipo de coisas ruins a partir do mal que habita seu interior" (Lc 6, 45).

A kakistocracia é um conceito do historiador grego Políbio. Significa governo do pior dos piores, do pior dos imorais, do pior dos incompetentes, etc. Toda eleição é uma oportunidade de derrotar kakistocratas. Se kakistos é superlativo de kakos, então uma kakistocracia é o governo não apenas dos perversos, mas do pior dos perversos. Quando um povo abre mão de ter os melhores, passa dos medíocres aos piores. Quem mais sofre são aqueles que não conseguem se defender da perversidade do pior dos perversos, os pobres. Seu voto pode fazer a diferença. A finalidade da democracia é garantir a igualdade de direitos.

Domtotal 

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016)

Nenhum comentário:

Postar um comentário