sexta-feira, 13 de novembro de 2020

HOSPITALIDADE: O CORAÇÃO DO EVANGELHO

A hospitalidade é paradigma identitário do povo judeu radicalizado em Jesus
'Abraão e os três anjos', aquarela de James Tissot (The Jewish Museum/Wikimedia)

Felipe Magalhães Francisco*

O cristianismo não inventou a hospitalidade. Mas, desde a atuação de Jesus, no século primeiro de nossa era, os seus seguidores e seguidoras foram educados para essa prática, pois ela reflete aquilo que é o núcleo essencial da pregação e atuação do Galileu: o Reino de Deus. Em sua missão, Jesus soube, com muita sensibilidade, trazer uma das questões mais fundamentais do judaísmo, a hospitalidade, interpretando-a no horizonte do Reino de Deus que, significa, em última instância, a real possibilidade novas relações com Deus e entre nós.

A assemelhação que Jesus faz do Reino de Deus, comparando-o ao banquete e às festas de casamento é sinal de que levava muito a sério a perspectiva da hospitalidade. Ao enviar seus discípulos em missão, para anúncio do Reino, entre as recomendações estava a de que gozassem da hospitalidade das pessoas, como sinal de que a Boa Notícia ali tinha sido acolhida. A comunidade cristã, continuamente reunida em memória do Crucificado-Ressuscitado, aprendeu com seu Mestre que a maneira mais contundente de celebrar sua memória se dá ao redor da mesa: a eucaristia é o encontro de comunhão, na qual a vida é chamada a ser feita casa para acolhida do outro.

Uma das passagens mais célebres do Antigo Testamento, a respeito da hospitalidade, é a que narra o encontro de Abraão com os três anjos – que representam a presença do próprio Deus. Sentado à sombra do carvalho de Mambré, Abraão de longe avista três homens se aproximarem. Prontamente, o patriarca vai ao encontro deles, detendo-os no caminho para que pudessem gozar de sua hospitalidade (cf. Gn 18,1-8). Essa narrativa tem caráter enraizador de um costume que marcará um dos aspectos da singularidade do povo de Israel. A hospitalidade, nesse sentido, torna-se um paradigma identitário para o povo judeu. Jesus, por sua vez, vai radicalizar isso, quando estabelece a hospitalidade como critério necessário à salvação: alimentar e saciar o faminto e o sedento, recolher o forasteiro e vestir o nu, visitar o enfermo e o encarcerado... (cf. Mt 25,35-40). Viver a hospitalidade é, portanto, acolher o próprio Deus, que se revela em seu Filho Jesus, irmão de toda a humanidade.

No primeiro artigo de nosso Dom Especial, A hospitalidade como testemunho do Reino de Deus, Rodrigo Ferreira da Costa reflete sobre o imperativo ético da hospitalidade, como sinal efetivo da chegada do Reino de Deus. César Thiago Alves, no artigo A mesa eucarística como marco da hospitalidade, lança um olhar para a radicalidade do significado do estar à mesa da eucaristia como lugar da acolhida sem critérios dos que desejam a ela se achegar. Por fim, Francisco Thallys Rodrigues encerra a reflexão, com o artigo Acolher o dom de Deus no próximo, no qual medita sobre a prática da acolhida, em seu caráter pastoral, tão importante para a evangelização cristã.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas 'Imprevisto' (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

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