sexta-feira, 27 de novembro de 2020

REDES SOCIAIS E EVANGELIZAÇÃO: COISAS PARA SE PENSAR

Compreender mecanismos e linguagem das redes é tarefa dos pastoralistas contemporâneos

Poster do filme 'O dilema das redes' (Divulgação/Netflix) 
A década de 1990 foi de grandes transformações: foi o processo de passagem do analógico para o digital. E, desde então, as revoluções tecnológicas são cada vez mais rápidas e dinâmicas. A maior parte das pessoas não conhece sequer a superfície de todo arcabouço de engenharia por trás de tantas coisas que já fazem parte do nosso dia a dia. E não conhecer todo esse universo de algoritmos e códigos torna bem mais difícil que saibamos os riscos de segurança que corremos, por exemplo. O que não negamos, absolutamente, são os inúmeros benefícios que as tecnologias e, com elas, as mídias sociais trouxeram para nossa vida cotidiana. É claro que tudo isso deve ser visto do ponto de vista crítico. 
A Netflix, serviço de streaming, disponibilizou um instigante e estarrecedor documentário, chamado O dilema das redes, dirigido por Jeff Orlowki. Um dos pontos mais interessantes do documentário é que ele entrevistou pessoas que foram responsáveis pela criação dos algoritmos das redes sociais, e que hoje são ativistas na busca por mais segurança dos dados na web. Aquilo que todos sabíamos, a respeito da capitalização de nossos dados, tornou-se mais explícito com o documentário. Mais: tomamos consciência de como toda uma engenharia é utilizada para nossa manipulação. O documentário é importante porque torna mais acessível a discussão sobre a ética que envolve o mundo digital, debate que não podemos deixar passar. 
Na perspectiva religiosa, vimos que as mídias sociais foram entendidas como possíveis ferramentas de evangelização e propagação de conteúdos de inspiração religiosa. Pululam, pois, compartilhamentos de conteúdos religiosos, muitas vezes sem nenhuma profundidade ou amparo teológico consistentes. Para o cristianismo, em geral nosso objeto de análise e reflexão, a questão da evangelização nas redes já se dá há algum tempo. Algumas iniciativas são bastante interessantes e outras precisam de um melhor refinamento pedagógico e teológico. Para além da reflexão ética, com a qual o cristianismo pode contribuir na reflexão, o documentário supracitado traz outras questões para o uso das redes, na missão evangelizadora. 
Uma dessas questões diz respeito às bolhas que os algoritmos criam: apenas conteúdos que já coincidem com nosso modo de pensar aparecem em nosso feed. Isso significa que, quando postamos algo, apenas aquelas pessoas que têm gostos, pensamentos e crenças semelhantes aos nossos têm acessos a essa postagem. A conclusão: falamos para "nós" mesmos. Outro ponto importante a se considerar é como o diálogo e o encontro com visões diferentes de realidade são impedidos. Evangelização sem diálogo e abertura para escuta do lugar do outro não é evangelização. Uma das tarefas de pastoralistas contemporâneos é, pois, compreender os mecanismos e a linguagem das redes, para propor uma presença evangelizadora que dê conta de furar as bolhas, com responsabilidade e efetividade, considerando todas as questões éticas que envolvem essa ambiência. 
Os três artigos que compõem este nosso Dom Especial pensam desde a ética que deve permear nossa presença nas redes até à inteligência e sagacidade pastorais para o uso delas. No primeiro artigo, Ética e sociedade da informação: uma reflexão a respeito dos dilemas das redes, Robert Dantas faz um panorama da problemática, reclamando uma exigência ética necessária. Renata Tarrio propõe o segundo artigo: É preciso ter cuidado, mas ser ousado: o dilema das redes católicas, no qual reflete sobre a relação do catolicismo institucional com os meios sociais, desde seu momento de tensionamento e desconfiança à abertura para seu uso no processo evangelizador. Arremata a reflexão, o artigo Comunidades online: construindo pontes no ambiente digital, de Gizele Barbosa, em que parte da pergunta sobre a possibilidade de se fazer experiência de Deus, online, bem como os desdobramentos teológico-pastorais dessa questão. 
Boa leitura! 

Fonte: domtotal.com

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