sábado, 19 de dezembro de 2020

ADVENTO: À ESPERA DE UM CRISTO QUE SEMPRE VEM

Nos pobres podemos contemplar a kenosis de Cristo (Ricardo Oliveira/AFP)

Entre a primeira e a segunda vindas, o Senhor pede de nós que vivamos nesse mundo, percebendo sua contínua presença nos pobre

O tempo litúrgico do Advento se reveste de uma expectativa toda especial. Aguardamos e nos preparamos para o encontro com o Senhor. E trata-se de um duplo encontro: sua primeira vinda, kenótica (cf. Fl 2,5-11), em pobreza ("não havia lugar para eles na hospedaria" ?" Lc 2,7b) e cujo anúncio é feito a gente de má fama da época, aos pastores (Lc 2,8-12) e aos magos do oriente (Mt 2,2); já a sua segunda vinda, no fim dos tempos, deve nos encontrar vigilantes e atentos na prática da justiça (cf. Lc 13,27), que consiste fundamentalmente no cuidado e defesa dos pobres e oprimidos, com os quais o Senhor se identifica (cf. Mt 25,31-46).

É isso o que muito bem expressa o prefácio do Advento 1A, Cristo Senhor e Juiz da História: "Vós preferistes ocultar o dia e a hora em que Cristo, vosso Filho, Senhor e Juiz da História, aparecerá nas nuvens do céu, revestido de poder e majestade. [...] Agora e em todos os tempos, ele vem ao nosso encontro, presente em cada pessoa humana, para que o acolhamos na fé e o testemunhemos na caridade, enquanto esperamos a feliz realização do seu reino".

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Entre a primeira e a segunda vindas, o Senhor pede de nós que vivamos nesse mundo, percebendo sua contínua presença nos pobres, injustiçados e marginalizados, sua "presença real no meio de nós" (Papa Francisco, 2º Dia mundial dos pobres, n.7).

Essa acolhida e defesa dos pobres e marginalizados é o que mais caracteriza o modo como Deus se revela na história do seu povo e, de modo muito concreto, na pessoa de Jesus Cristo. É isso o que nos recorda o papa Francisco na Evangelii gaudium: na Escritura e na Tradição, Deus sempre ouve o clamor dos pobres (cf. EG 187), os pobres ocupam lugar preferencial no coração de Deus (cf. EG 197) de modo que "todo o caminho da nossa redenção está assinalado pelos pobres" (EG 197). Por isso, permanecer "surdos" ao clamor dos pobres e não solidarizar-se com eles implica em estar "fora da vontade do Pai e do seu projeto" e "influi diretamente sobre a nossa relação com Deus" (EG 187). Se é assim no coração de Deus, essa deve ser também a opção da Igreja: "Inspirada por tal preferência, a Igreja fez uma opção pelos pobres, entendida como uma 'forma especial de primado na prática da caridade cristã, testemunhada por toda a Tradição da Igreja'[João Paulo II]". Recorrendo e fazendo sua a afirmação de Bento XVI, diz Francisco: "esta opção 'está implícita na fé cristológica naquele Deus que Se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza'. Por isso, desejo uma Igreja pobre para os pobres" (EG 198).

Também nisso insiste o papa Bento XVI: "o Senhor Jesus, pão de vida eterna, incita a tornarmo-nos atentos às situações de indigência em que ainda vive grande parte da humanidade [...]. O alimento da verdade leva-nos a denunciar as situações indignas do homem, nas quais se morre à míngua de alimento por causa da injustiça e da exploração, e dá-nos nova força e coragem para trabalhar sem descanso na edificação da civilização do amor" (Sacramentum Caritatis, n. 90). Assim, nossa participação na Eucaristia, quando reconhecemos e recebemos a presença real de Cristo, deve levar-nos a um compromisso de reconhecimento da presença Dele nos pobres e compromisso real com Ele: "Se realmente queremos encontrar Cristo, é preciso que toquemos o seu corpo no corpo chagado dos pobres, como resposta à comunhão sacramental recebida na Eucaristia. O Corpo de Cristo, partido na sagrada liturgia, deixa-se encontrar pela caridade partilhada no rosto e na pessoa dos irmãos e irmãs mais frágeis" (Papa Francisco, 1º Dia mundial do pobre, n.3). É isso também que suplicamos ao Senhor na Oração Eucarística (6D ?" Jesus que passa fazendo o bem): "Dá-nos olhos para ver as necessidades e sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs. Inspirai-nos palavras e ações para confortar os desanimados e oprimidos. Fazei que, a exemplo de Cristo e seguindo o seu mandamento, nos empenhemos lealmente no serviço a eles. Vossa Igreja seja testemunha viva da verdade da liberdade, da justiça e da paz para que toda a humanidade se abra à esperança de um mundo novo".

Esse compromisso real e efetivo com os pobres se dá em duas direções: nos gestos diários de solidariedade com os pobres que encontramos todos os dias e a quem somos interpelados a partilhar do que temos e somos, como também no empenho para resolver as causas estruturais da pobreza e da miséria que não diminuem, mas só aumentam.

É oportuno recordar, contudo, que os pobres não são somente objeto de nossa ação. Eles são sujeitos e tornam-se nossos mestres em muitas coisas. Eles nos ensinam a viver de maneira mais coerente a nossa fé; com sua confiança e disponibilidade para aceitar ajuda, mostram que não se precisa de muito para ser feliz, pois vivem felizes, mesmo com tão pouco. Eles são cheios de esperança: celebram pequenas coisas, mesmo em meio a um turbilhão de derrotas, e, assim, mostram que se deve alegrar com cada pequeno passo dado, pois isso nos alimenta para continuar trilhando caminhos e buscando soluções. Eles são generosos na partilha: nada do que conseguem ou têm fica retido para si mesmos, mas estão sempre dispostos a partilhar mesmo do pouco que têm com aqueles que não tem ou chegam de última hora. Os pobres têm uma imensa confiança e relação de gratuidade com Deus: "Deus lhe pague" é o que dizem! Ficou na conta de Deus o que é feito a eles. Em tudo isso, eles nos evangelizam, "ajudando-nos a descobrir cada dia a beleza do Evangelho" (Papa Francisco, 2º Dia mundial dos pobres, n.10). Ou ainda: "Os pobres salvam-nos, porque nos permitem encontrar o rosto de Jesus Cristo" (3º Dia mundial dos pobres, n.09).

Seja, pois, o tempo do Advento ocasião propícia para recebermos o Senhor em nosso meio (cf. Mt 25,31-46): "tive fome... tive sede... era forasteiro... estava nu... estava doente... estava preso..."; "quando foi Senhor?"; "quando fizestes isso ao menor dos meus irmãos".

Domtotal 

*Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte. Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) ?" Belo Horizonte-MG; professor de Teologia Sistemática e Coordenador do Curso de Graduação em Teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) ?" Fortaleza-CE.

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