sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

DIREITOS HUMANOS: PARA NÃO SAIR O TEMA DA PAUTA!

A religião não pode ser instrumentalizada para atacar direitos

Direitos Humanos são coisa de gente! De gente que trilha caminhos de humanização, de ser mais pessoa. (Unsplash/Meiying Ng)

Felipe Magalhães Francisco*

"Que tempos são estes, em que temos que defender o óbvio?". Essa é uma pergunta feita por Bertolt Brecht, na primeira metade do século passado. Se vivesse agora, nestes nossos tempos hipernegacionistas, talvez seu espanto fosse ainda maior. São tempos de pós-verdade, onde imperam as fake news: se eu penso que algo é de tal forma, o que alguém me diz e que confirma, só pode ser verdade. Além disso, o conspiracionismo anda em alta: logo, qualquer narrativa, em tempos policialescos de insegurança, que corrobore pensamentos de perseguição, tem forte alcance no imaginário social. São tempos nos quais não podemos nos furtar de defender o óbvio.

Quando a questão é segurança, parece que tudo isso ganha contornos ainda mais expressivos. Narrativas policialescas criam um ambiente de perturbação, no qual o medo deixa as pessoas cada vez mais inseguras. E é justamente nesse ponto que a intolerância cresce: aqueles e aquelas que nos ameaçam, tornam-se inimigos a serem eliminados. É por isso que pessoas que trabalham em defesa da garantia dos direitos humanos tornaram-se tão demonizadas, como se os direitos humanos fossem, apenas, para salvaguardar garantias das pessoas socialmente odiadas, que têm direito à dignidade, independentemente de sua moral e situação diante da lei.

A narrativa é a de que defender direitos humanos – como se isso fosse sinônimo de defender e proteger bandidos – é coisa de esquerdista. A situação é tão grave que polarizaram a salvaguarda da dignidade da vida humana. Direitos humanos são coisa de gente! De gente que trilha caminhos de humanização, de ser mais pessoa. A busca pela garantia dos direitos aos quais nenhum ser humano deve ser privado precisa ser diuturna. E é justamente por isso que devemos combater, com veemência, narrativas que conduzem as pessoas a má compreensões a respeito do significado real dos direitos humanos. Ainda mais quando mulheres, negros e transexuais, dentre outros grupos, são cotidianamente vítimas de uma violência sistemática que degrada o humano.

Quando o discurso religioso se torna instrumentalizado por apologia às violências e se torna meio eficaz de disseminação de inverdades, mais que urgentes são os trabalhos que busquem garantir a verdade da religião, em meio à busca pela dignidade humana, sem a qual essas tradições perdem sua razão de ser. É essa a proposta do Dom Especial desta semana: colaborar com a discussão para que a compreensão a respeito dos direitos humanos saia desse quadro de apropriação por grupos mal-intencionados. No primeiro artigo, Precisamos falar sobre direitos humanos, Robson Sávio Reis Souza reflete a questão a partir das injustiças causadas pelo sistema econômico que limita o acesso aos direitos. Gustavo Ribeiro, no artigo Direitos de que humanos?, problematiza nosso tema, refletindo sobre o processo do que chama de "terraplanismo" anti Direitos Humanos. Por fim, Edward Guimarães, no artigo Cristianismo e direitos humanos: faces distintas de uma mesma moeda? Sim e não!, traz o cristianismo para a conversa, a partir do imperativo ético que move essa tradição de fé.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

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