segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

O PAPA FRANCISCO E A INFALIBILIDADE

Pontífice aponta para o sentido da fé do povo de Deus, o elemento de equilíbrio e discernimento entre as controvérsias dos pastores hoje
Francisco insiste que é hora de aprender a andar referindo-se ao povo de Deus (AFP)


Paolo Scarfoni e Filomena Rizzo*

A infalibilidade do papa foi proclamada como dogma há 150 anos no Concílio Vaticano I. Conhecemos bem os problemas e as dificuldades que tem gerado na Igreja e no mundo cristão e as crises políticas nas relações com os Estados, ameaçados em sua soberania; mas pouco se pensou, mesmo em teologia, no escopo inovador desta decisão.

Para além desse momento histórico, do ponto de vista antropológico, a verdadeira novidade deste dogma era a universalidade. A consciência real de poder desafiar o total da humanidade hoje é chamada de "globalização". Algo impensável até então, a coragem que a Igreja Católica teve, em primeiro lugar, de propor uma globalização em torno da figura do papa. Estamos diante de uma profecia do que será uma jornada irreversível da humanidade: um mundo global onde tudo está conectado. As grandes potências do mundo tentarão imitar este caminho, no campo político, militar, econômico, financeiro e cultural, vivendo também os mesmos limites e as mesmas dificuldades sofridas na Igreja.

Naquela época, os dois grandes limites da interpretação da infalibilidade e da universalidade eram: a reivindicação do domínio de todo o pensamento universal com a submissão de todos os homens; e a obtenção da univocidade das expressões de fé. Enfim, a universalidade como uniformidade, exigindo a renúncia à liberdade e à diversidade cultural. Lembremos que o papa era visto como um monarca absoluto.

As outras potências do mundo começaram a seguir na mesma linha: atingir a dominação universal e uniformizar a vida e a mentalidade de todos os homens, fazendo-nos acreditar que a universalidade não é possível sem impor estes dois limites. Tais premissas passaram a ser a única condição de possibilidade para o desenvolvimento mundial. Hoje, todos nós vivemos isso no mundo digital, que nos pede para abdicar de nossa privacidade, para nos permitir sermos rastreados em todos os lugares e ser influenciados nas escolhas de quase todos os aspectos de nossas vidas.

Um segundo momento providencial de experiência de universalidade foi o Concílio Vaticano II, que talvez nunca pudesse ter sido realizado sem a bela consciência de João XXIII, que se auto intitulou "o papa de todos". "O mundo inteiro é minha família. Este sentimento de pertença universal deve dar o tom e a vivacidade à minha mente, ao meu coração e às minhas ações" (Il Giornale dell’Anima 29 de novembro - 5 de dezembro de 1959).

A presença em Roma dos bispos de todos os povos do mundo, dos observadores e delegados das Igrejas ortodoxas e das outras confissões cristãs, os convidados do secretariado da unidade cristã, a contribuição dos especialistas, especialmente dos leigos, os dos auditores e párocos, iluminaram ainda mais o caminho da universalidade e consequentemente da infalibilidade. Nesse entrelaçamento de relações e conhecimentos, tornou-se imediatamente evidente para todos que a infalibilidade e a universalidade não podiam significar uma renúncia à liberdade e uma abolição da diversidade pela uniformidade. Pelo contrário, o Concílio foi vivido como colegialidade, liberdade e valorização das numerosas tradições cristãs nas várias culturas, criando também inevitavelmente atritos e momentos difíceis. Uma experiência de Igreja que irradiou tantas esperanças a toda a humanidade.

O Concílio, de fato, modificou amplamente as diretrizes do magistério papal anterior. Os eventos levaram o exercício da infalibilidade para a colegialidade. O papa apoiou a mudança, e sua figura foi mais valorizada, não vulnerada, como muitos temiam. A colegialidade não é entendida apenas como sentimento da reunião dos bispos, mas também como o legado deixado por todos aqueles que os precederam.

A mudança de época que vivemos hoje, acentuada pela pandemia, onde tudo está conectado, refina ainda mais a importância e o serviço da infalibilidade como caminho para a verdade: a infalibilidade do povo de Deus, o sensus fidei, que brilha desde que foi proclamado como um dogma, junto aos outros dois dogmas marianos (Imaculada Conceição e Assunção de Maria ao céu). O papa Francisco aponta para o sentido da fé do povo de Deus, o elemento de equilíbrio e discernimento entre as controvérsias dos pastores hoje. Francisco insiste precisamente neste ponto: é hora de aprender a andar referindo-se ao povo de Deus. Trata-se de ensinar ouvindo e aprendendo com as pessoas que estão na origem, principalmente nas dificuldades: é capaz de "elevar-se" juntos também na fé. É o caminho da sinodalidade, que acompanha a colegialidade e o ministério petrino. Muitas pessoas acham impossível fazer este percurso do ponto de vista prático e preferem caminhos já conhecidos.

É o resultado da obra do Espírito Santo, mas seu sucesso não está garantido. A história já experimentou isso. Alguns prelados, pelo que se pode constatar na mídia, tentam trazer a Igreja de volta para o clima pós-tridentino, criando tensões em vista das próximas eleições papais. Foi na época do Concílio de Trento que a sucessão ao trono papal foi decidida lançando suspeitas sobre os candidatos.

Pela primeira vez em um conclave (1549-1550), uma acusação de heresia foi lançada contra o cardeal inglês Reginald Pole, fato que refletia as divisões na Igreja em face do Protestantismo. O cardeal foi um grande defensor do papado, um homem moderado e mediador, e pagou o preço pessoal pelo seu compromisso com a unidade da Igreja na Inglaterra. Em seu livro De Summo Pontifice, escrito alguns anos antes, o inglês apresentou o papel do sucessor de Pedro como imitador de Cristo e formulou a "infalibilidade" como garantia de liberdade perante o poder dos Estados. Provavelmente, com sua eleição, a face e a história da Igreja teriam passado por um ponto de inflexão.

Precisamente na manobra da infalibilidade se apoiam aqueles que se opõem ao papa Francisco. Mas agora, a infalibilidade não é mais sinônimo de poder, mas de serviço com amor a toda a humanidade por uma Igreja de Cristo verdadeiramente universal.

Publicado originalmente por La Stampa.

Traduzido por Ramón Lara.

*O irmão Paolo Scarafoni e Filomena Rizzo ensinam teologia juntos na Itália e na África, em Addis Abeba. São autores de livros e artigos de teologia. 

Domtotal

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