quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

SÃO JOSÉ É O SANTO PADROEIRO QUE PRECISAMOS NESTA PANDEMIA

Vida oculta de Jose é compartilhada intimamente por milhões de pessoas que estão abrindo caminho através da pandemia (Unsplash)
A ocultação da vida de José pode dizer muito para os oprimidos pela Covid-19 que se perguntam se Deus está com eles
O papa Francisco anunciou no dia 8 de dezembro, o "Ano de São José" em homenagem a um de seus santos favoritos. Com sua carta apostólica "Patris corde" ("Com um coração de pai"), o papa convidou a Igreja universal a meditar e orar pelas graças do pai adotivo de Jesus.
O exemplo e as graças de São José vêm em um momento muito oportuno. Em uma época em que uma pandemia global forçou milhões de pessoas a viverem escondidas, isoladas e sozinhas, podemos ver São José como um modelo de vida oculta. Também sabemos que José morreu antes do ministério público de Jesus; mas ele, como esposo de Maria, sem dúvida estava familiarizado com o sofrimento. Portanto, podemos vê-lo como nosso patrono também, orando por nós enquanto escuta e entende nossas lutas contra a doença.
Mas o que sabemos sobre nosso patrono e companheiro?
Como muitos santos cuja linhagem pode ser vagamente encontrada nos primeiros dias da Igreja, muito pouco se sabe sobre São José, além do que aprendemos das poucas linhas escritas sobre ele nos Evangelhos. O pai adotivo de Jesus era da linhagem do Rei Davi e estava noivo de uma jovem de Nazaré. Maria foi encontrada, inesperadamente, grávida. Mas José, "sendo um homem justo e sem vontade de expô-la à desgraça pública", como diz o Evangelho de Mateus, planejou dissolver seu noivado silenciosamente. Mesmo antes de Jesus nascer, então, a terna compaixão e o coração perdoador de José estavam em seu pleno brilho.
Mas Deus tinha outros planos. Assim como aconteceu com um outro José, problemático – um patriarca do livro de Gênesis – Deus usou um sonho para revelar seus planos de redenção para o carpinteiro de Nazaré. No sonho, um anjo revelou a José o segredo de Maria: "José, filho de Davi, não temas receber a Maria como tua mulher, pois o que nela está gerado é do Espírito Santo" (Mt 1, 20). Esse mesmo anjo, após o nascimento do filho de Maria, aconselhou José a levar a criança e sua mãe ao Egito para fugir da morte em mãos do assassino Herodes. E José ouviu o anjo.
Existem mais algumas histórias sobre o menino Jesus – quando se perdeu em uma jornada e foi encontrado ensinando no templo – mas depois chegamos na parte oculta da vida de nosso salvador. Tudo o que o Evangelho de Lucas diz sobre aqueles 18 anos é o seguinte: "E Jesus se crescia em sabedoria, estatura e graça na presença de Deus e de todas as pessoas" (Lc 2, 52).
Esses anos foram a época de José. Como pai, passou um tempo cuidando do filho adotivo e ensinando-lhe carpintaria. Na oficina de José em Nazaré, Jesus teria aprendido sobre as matérias-primas de seu ofício: qual madeira era mais adequada para cadeiras e mesas, qual funcionava melhor para jugos e arados. Um José experiente teria ensinado para seu aprendiz a maneira correta de cravar um prego com um martelo, fazer um buraco limpo e profundo em uma prancha e nivelar uma saliência ou dintel.
José também teria ensinado a Jesus os valores exigidos para se tornar um bom carpinteiro. Você precisa de paciência (para esperar até que a madeira esteja seca e pronta), bom senso (para garantir que seu fio de prumo esteja reto), persistência (para lixar até que o tampo da mesa esteja liso) e honestidade (para cobrar das pessoas um preço justo). Ao lado de seu mestre, um jovem Jesus trabalhou e construiu, contribuindo ao mesmo tempo para o bem comum de Nazaré e das cidades vizinhas. Não é difícil imaginar que as virtudes que Jesus aprendeu com seu professor – paciência, juízo, persistência e honestidade – o serviram bem em seu ministério posterior. José ajudou a moldar Jesus naquilo que o teólogo John Haughey, S.J., chamou de "o instrumento mais necessário para a salvação do mundo".
Mas quando Jesus começa seu ministério, José desaparece – pelo menos nas narrativas do Evangelho. É significativo que José não esteja listado entre os convidados da festa de casamento em Caná, que marcou o início do ministério público de Jesus. Por acaso morreu antes de seu filho atingir a idade adulta?
Em uma exposição de arte na Catedral do Divino São José, na cidade de Nova York, vários anos atrás, encontrei um retrato intitulado A morte de São José. No enorme retrato, pintado por Francisco Goya, encontramos um José doente que está deitado na cama. Ao lado do seu leito está um Jesus de aparência jovem, talvez 16 ou 17 anos, imberbe, vestindo uma túnica longa, com os olhos fixos em José. E Maria está sentada ao lado da cama.
A pintura de Goya captura lindamente a tristeza que deve ter cercado a morte prematura de José. Uma tristeza semelhante nos acompanha há muitos meses, a tristeza que cerca as mortes de tantas pessoas pela Covid.
José é tradicionalmente invocado como o patrono de uma "morte feliz". Mas sua morte não poderia ter sido feliz para Jesus ou Maria. Os Evangelhos não nos dizem nada sobre seu luto. Não há linhas sobre a dor de Maria, nem versos sobre a tristeza de Jesus. A Sagrada Família, então, é como muitas famílias hoje, que lamentam a perda de pais e avós, tias e tios, irmãos e irmãs e filhos durante esta pandemia. Muito de sua dor também deve ser sentido de forma isolada, não aparecendo em nenhuma manchete.
A ocultação da vida de José também pode falar para aqueles oprimidos pela pandemia, que se perguntam se Deus está com eles, se Deus os vê. Aparecendo apenas brevemente nos Evangelhos, sem receber nenhuma palavra para falar, José leva uma vida de serviço silencioso a Deus, uma vida que permanece quase totalmente desconhecida para nós. E, no entanto, sua vida, repleta de incontáveis atos de amor ocultos, invisíveis e não registrados, era de valor infinito. A vida de José nos diz a todos: "Deus vê você".
Sua vida oculta é compartilhada intimamente por milhões de pessoas que estão abrindo caminho através da pandemia: um profissional de saúde na linha de frente cujos sacrifícios estão escondidos até mesmo de sua família. Uma mãe solteira que não pode confiar a ninguém sua intensa preocupação com os filhos. Um filho adulto de um pai idoso que vive em uma casa de repouso, apavorado com a propagação da doença entre os residentes idosos. Um caixa, um trabalhador do transporte público, um encarregado da manutenção, mal conseguindo sobreviver antes da crise econômica deste ano, que agora não têm como "trabalhar em casa". Um padre que já celebrou incontáveis funerais para as vítimas de Covid e suas famílias, preocupado por não ter sido capaz de confortá-los como esperava. Um paciente de Covid morrendo sozinho, chorando de frustração e angústia, perguntando-se o que está acontecendo.
Tantas vidas escondidas. Muitos atos de amor invisíveis nesta pandemia. Tantas orações secretas elevadas ao céu. O marido de Maria e pai adotivo de Jesus compreende a todos.
São José, patrono da vida oculta, patrono desta pandemia, rogai por nós, este ano e para sempre.
Publicado originalmente por America

Tradução: Ramón Lara
*James Martin, S.J. é o editor geral da America e autor de My Life with the Saints, do qual este artigo foi extraído. @jamesmartinsj

 


 

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