sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

A LEVEZA DA FÉ, NUM DEUS QUE É PURO AMOR

Coração da mensagem de Jesus, a respeito de Deus, é a gratuidade do amor (Wesley Eland/Unsplash)
Fruto existencial de um encontro verdadeiro com este Deus, é a experiência de uma fé leve, que é capaz de não se pautar pela culpa e remorso

Felipe Magalhães Francisco*

Há um poema de Alberto Caeiro - heterônomo de Fernando Pessoa - no qual o eu-lírico expressa sua relação onírica de profundo amor para com o menino Jesus. No sonho, o menino, num meio dia de fim de primavera, resolve abandonar o Céu, para viver na Terra. É interessante notar o contraste entre o menino, que parece querer deixar de ser Deus, para outras personagens sagradas: Deus-Pai, o Espírito Santo e Maria, todos personagens de feições e personalidades graves. O menino, segundo o poema, expressa leveza, alegria. Sobre Deus, o poema diz que o menino, que fugira do céu, assim o descreve: "Diz-me muito mal de Deus. / Diz que ele é um velho estúpido e doente, / Sempre a escarrar no chão / E a dizer indecências".
Espero que os leitores e leitoras não se espantem sobremaneira! Apesar de expressões que causem susto e provocação à sensibilidade religiosa, o caso, aqui, não deve ser pensado a partir da blasfêmia e da heresia. O poema está imune à condenação, graças à liberdade poética, assim somos convidados a pensar. Para além disso, há algo de bastante pertinente que podemos refletir. É verdade que a personagem 'Deus' é representada de forma grotesca, como uma Pessoa grosseira. O espanto nascido a partir dessa descrição-imagem pode nos ajudar a refletir sobre uma imagem de Deus, tão popular nas fileiras cristãs, que, de alguma forma, é criticada pelo poema.
Quem de nós, em algum momento de nossa vida, não foi confrontado com uma imagem punitivista, extremamente vigilante e controladora de Deus? Que criança, em alguma situação em que fez algo a respeito do qual os pais ou avós não gostassem, que não ouviu que não deveria fazer tal coisa, porque 'papai do céu não gostava'? Essa imagem de Deus se arrasta em nossa história ocidental já há séculos: é fruto de uma visão teológica que não se resguarda nos evangelhos, e que traz consequências graves para a fé, sobretudo das pessoas mais simples. É uma imagem de Deus que, sem dúvidas, é responsável - entre outros elementos - por grande parcela de ateus que, não sem razão, recusam-se a depositar confiança e amor num Deus que não seria amável.
Quando olhamos com atenção e sensibilidade para os evangelhos, percebemos que o coração da mensagem de Jesus, a respeito de Deus, é a gratuidade do amor. Graça, afinal, é um dos adjetivos-nomes de Deus, que manifesta um amor em desmesura, transbordante. O fruto existencial de um encontro profundo e verdadeiro com este Deus, é a experiência de uma fé leve, que é capaz de não se pautar pela culpa e remorso, pelo sentimento de obrigação; uma fé resistente que pode sorrir, porque ligado a um Deus que ama a alegria. O Dom Especial desta semana reflete sobre a leveza da fé, possível quando nascida e ancorada numa experiência com um Deus que é todo amor.
No primeiro artigo, A lei do amor: da obrigatoriedade à liberdade da fé, Eduardo Rodrigues Calil nos remete à postura de Jesus, que nos liberta de uma vivência de religião baseada na rigidez de esquemas, para a abertura a uma gratuidade que, verdadeiramente, transpira amor. Gustavo Ribeiro, no artigo A fé resistente de um povo que ri, reflete como o 'riso' é importante para a fé cristã, que se expressa na alegria evangélica, de modo a nos ajudar a romper com esquemas econômicos-culturais que nos roubam de uma genuína experiência de liberdade. Por fim, Sandra Regina de Sousa, reflete sobre a leveza da fé, mesmo diante do sofrimento, tal como o provocado por nosso contexto mundial atual, no artigo A leveza da fé permite amar a Deus sem culpa.
Boa leitura!

Fonte:domtotal.com

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