quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

COMO MORRE A NOSSA DEMOCRACIA

Reunião de líderes com o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira, representante do bolsonarismo (Luis Macedo/Câmara dos Deputados)
A democracia brasileira vem sendo estrangulada pouco a pouco
Muitas teorias têm sido formuladas para explicar o bizarro fenômeno Bolsonaro e a hegemonia da extrema direita no poder. São, no mínimo, incompletas. A última que ouvimos é que o povo brasileiro está "adormecido". A culpa é do povo e de sua alienação.
Essa é uma meia verdade. Um psicologismo que começa generalizando a palavra "povo" e termina reduzindo a complexidade política do momento em que vivemos. Não é bem assim.
Temos uma tradição autoritária de nossas elites endinheiradas que trabalham constantemente para gerar um consenso antipopular disfarçado sob uma máscara de populismo. Bolsonaro é a carantonha mais feia dessas elites e de seu sistema. Brecht dizia que o fascismo é a verdadeira face do capitalismo.
Uma "oligarquia liberal" bastante corrupta e corruptora comanda o espetáculo da política, desde, pelo menos, a Ditadura de 1964-85, passando pela Nova República, hoje falida completamente com a dominação da Câmara dos Deputados e do Senado pelo bolsonarismo.
Houve quem esperasse ingenuamente de Rodrigo Maia, presidente da Câmara, uma atitude digna e um gesto heroico de iniciar um processo de impeachment ou uma CPI sobre a Covid contra Bolsonaro, sobretudo depois do morticínio no Amazonas. Ora, Maia é a própria essência do Sistema – "é" o Sistema – que envolve desde a Rede Globo, a Fiesp, os grandes bancos, o "Mercado" e até o lucrativo agronegócio.
Esperar de Rodrigo Maia que se rebelasse seria o mesmo que aguardar semelhante atitude de Paulo Guedes, o Posto Ipiranga que sustenta o regime bolsonariano.
Temos uma espécie de "chavismo" de extrema direita, que tem engolfado a dita "direita civilizada". Só falta incluir o STF e uma parte dos jornalistas (não as empresas para as quais trabalham) que ainda sonham com democracia.
O "povo" não está adormecido: uma parte apoia o capitão por seu suposto fundamentalismo cristão, outra por acreditar em suas promessas de reforçar a segurança pública (segurança de miliciano, é verdade, feita pela violência e brutalidade) e a classe média branca, mesmo chocada com o genocídio e a falta de vacinas, o tolera em função do seu ódio "antipetista" e na expectativa de que Guedes tire o país da crise econômica e salve o capitalismo de consumo.
A vitória do bolsonarismo no Congresso foi repugnante, mas compreensível. Bolsonaro foi deputado (medíocre) por 28 anos, mas conheceu todas as artimanhas do "toma lá dá cá", observou e participou de maracutaias, foi aliado de Paulo Maluf no seu partido de então, e sabia muito bem como comprar os espertalhões do templo da democracia.
Havia prometido acabar com esse tipo de barganha, alguns moralistas o condenam por falsas promessas e os falsos moralistas do tipo Sérgio Moro apontam o dedo em sinal de desrespeito. Mas a manobra funcionou com a conivência de todos os membros da "oligarquia liberal" (uma contradição em termos).
O projeto de poder de Bolsonaro, que pode eventualmente durar mais seis anos, não é individual. A direita costuma ser ruim de voto no país, desde pelo menos o tempo em que se opôs a Getúlio Vargas. A velha UDN sofria desse mal: não tinha eleitores. Inventou Carlos Lacerda, que recorria aos militares para dar golpes, inventou Jânio Quadros, populista de direita, pseudomoralista que se atrapalhou ao tentar dar um golpe bonapartista (acima dos partidos e das classes sociais). Após seu período áureo na Ditadura, a direita tentou lançar Fernando Collor, detonado após escândalos de corrupção e manifestações no país todo.
Sua mais recente invenção, o capitão ignorante, mas espertalhão e mau caráter, está aí para executar um projeto de destruição gradual da democracia, iniciado segundo o modelo paraguaio do "golpe parlamentar".
O capitão atende às demandas do Mercado: redução das conquistas trabalhistas (iniciada com Temer, o Breve) e submissão gradual das instituições às exigências econômico-financeiras dos banqueiros, rentistas e latifundiários, sem se preocupar com as consequências sociais e ambientais. O mais espantoso é que a direita "moderada", principalmente o PSDB, deu aval aos candidatos do governo na Câmara e no Senado.
Para esse projeto "dar certo", é necessário ter poder, e isso o capitão está acumulando.
Não se enganem: dominando o Congresso, Bolsonaro vai chegar sem impeachment em 2022, a menos que a revolta popular seja de tal monta que os seus próprios aliados o abandonem. Com sua falta de escrúpulos ao usar a caneta presidencial, não devemos duvidar que vai tentar, inclusive, diferenciar-se de Trump e garantir a reeleição.
A democracia brasileira vem sendo estrangulada pouco a pouco desde o "golpe paraguaio" de 2016, modelo que dispensa a intervenção militar direta e convoca parlamentares e juízes para impor um poder coercitivo mais sutil, mas nem menos violento e sistemático. No Brasil, os militares entraram para o governo, com muitos privilégios, apenas depois do trabalho dos juízes – na Itália, depois da operação Mãos Limpas, surgiu Berlusconi; aqui, depois da Lava Jato veio Bolsonaro – e depois da obra dos deputados e senadores golpistas no Congresso em 2015-16.
Quando se fala de necropolítica para designar o negacionismo de Bolsonaro e sua turma, que já produziu quase 230 mil mortes pela Covid 19 no País, é preciso lembrar também que isso significa igualmente a morte da democracia.
Reinaldo Lobo é psicanalista e articulista
Fonte:domtotal.com

 


 

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