sábado, 20 de fevereiro de 2021

'CRISTO É A NOSSA PAZ:' UMA ANÁLISE DO LEMA DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2021

Somos desafiados a sair das dinâmicas do ódio, das limpezas étnicas das xenofobias e homofobias (Luis Quintero/ Pexels)
Carta aos Efésios revela projeto alternativo com critérios para além dos limites de etnia e religião ao considerar fiéis como concidadãos de uma mesma família
O texto de Efésios 2,11-22, com sua ênfase na paz e na superação das barreiras que dividem os seres humanos, é relevante e extremamente apropriado para inspirar à vivência fraterna, principalmente nesses tempos de polarizações e hostis dissensões por toda a parte. Não sem propósito e pertinência, está nesta perícope o texto base da Campanha da Fraternidade (2,14) deste ano, 2021. A segunda parte do capítulo dois de Efésios oferece subsídios substanciais para pensar em uma paz no nível das relações e da dignidade humana.
As comunidades da carta aos Efésios são o paradigma de comunidades hospitaleiras, mistas e inclusivas. Uma característica dessas comunidades é que eram formadas por gentios e judeus. O capítulo dois inicia com uma distinção entre “vós” e “nós” e com a argumentação do autor de que o “vós” corresponde aos que estavam mortos em delitos e pecados (2,1), vivendo segundo o curso deste mundo e segundo a inclinação da própria carne (2,3), enquanto que o “nós” corresponde aos que andavam também por estes caminhos, mas num tempo mais remoto. Por isso, ambos, “vós” e “nós”, eram, por natureza, filhos da ira (2,3). A partir do versículo quatro a distinção entre “vós” e “nós” desaparece num novo “nós” (2,4) que designa a ambos. O autor afirma que “Deus sendo rico em misericórdia,... deu-nos vida juntamente com Cristo, pela graça vocês são salvos” (2,5-6). E, mais adiante, é explicado a quem o autor se refere como “vós”, trata-se dos gentios (2,11), e a quem o autor se refere como a comunidade de Israel (2,12), os judeus.

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Mais importante do que afirmar a existência desses dois grupos étnicos no seio das comunidades é a insistência do autor em afirmar a unidade entre ambos. Unidade que não transforma os gentios em judeus, nem os judeus em gentios, mas de ambos faz um novo povo. Dos dois povos, Deus fez um (2,14); uma nova humanidade (2,15) reconciliada em um só corpo com Deus por meio da cruz (2,16); gentios e judeus são, agora e em Cristo, a família de Deus (2,19). Se não houvesse gentios e judeus convivendo nas mesmas comunidades não haveria a necessidade da insistência na unidade entre ambos. Além de revelar essa coexistência e unidade de judeus e gentios nas mesmas comunidades, a Carta deixa transparecer comunidades em que desapareceu a hostilidade entre judeus e pagãos. O autor apresenta novas comunidades fundamentadas na paz de Cristo, de modo que a circuncisão e quaisquer outras possíveis exigências ou critérios não são um requisito para a admissão à comunidade de crentes. Nasceu uma entidade nova feita de judeus e de pagãos em que já não se nota mais a distinção enquanto impossibilidade de partilha e acolhimento.
Digno de nota é a ausência da polêmica entre judeus e gentios, em especial a respeito da circuncisão e da Lei, assunto comum nas cartas paulinas. Também desaparece, na Carta aos Efésios, a esperança paulina de que Israel, enquanto povo escolhido de Deus do Antigo Testamento viesse a tomar parte da salvação e fosse reconciliado com os gentios salvos (Rm 9-11). Para Efésios, essa reconciliação já é uma realidade (2,11-19).
Com o “naquele tempo” (2,12), o autor da Carta refere-se à vida dos gentios antes de Cristo, e observa que estavam excluídos (2,12) e até rivalizados (2,14) com o mundo judaico, que também estava sob o domínio da Lei (2,15). Com o “agora” (2,13) mostra a irrupção da graça, que aproxima povos inimigos e forma um “homem novo” (2,14-15). E os gentios não têm que se sentir deixados de lado: “Então, vós já não sois estranhos nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e família de Deus” (2,19). Ou seja, a graça não é apenas um caso vertical. Rompem-se as barreiras que separam o homem de Deus e, assim, também se rompem as que separam o ser humano de seu semelhante.
Nesta carta argumenta-se pela unidade de judeus e gentios na mesma igreja, mas não há mais aquele tom polêmico dos debates sobre circuncisão e Lei. Judeus e gentios fazem, sim, parte da mesma igreja, mas não são mais gentios nem judeus. Eles são ambos uma nova humanidade (2,15), uma nova família de Deus (2,19). O judaísmo e a gentilidade parecem superados. Agora, em Cristo, têm uma nova humanidade comprometida com a paz e a unidade. Os muros da separação caem, a inimizade é suprimida, a lei dos mandamentos é abolida, as distâncias são superadas e as divisões não existem mais.
Com os cristãos destinatários da Carta aos Efésios, a teologia paulina sofreu uma evolução. A mais impressionante é a que diz respeito à compreensão de igreja. A igreja, de reunião local, tornou-se, pela sua unidade íntima com Cristo, um âmbito salvífico de natureza divina e de abrangência universal. Pela sua grandeza desviou os olhos de seus membros da esperança escatológica para a meta de construção e solidificação histórica. E uma das razões que podem ser atribuídas para essa evolução é a necessidade de unidade, haja vista que nessa igreja, descrita na Carta, não há mais barreiras étnicas, sociais, ou seja, quais forem: há a inclusão de todos, porque todos estão, em Cristo, unidos na mesma igreja.
As relações da humanidade com Deus podem ser sintetizadas em duas fórmulas. Reconciliação e filiação. E essa filiação não pode ser exclusiva de um grupo, nem excludente de outro. Não serão mais nem estranhos, nem estrangeiros, senão membros da casa de Deus estendida por cima de qualquer divisão. Portanto, o homem novo a que se faz referência é a comunidade nova.
Diante de uma lógica social vigente que parece instigar ao desprezo pelos que comungam de ideologias distintas, a Carta aos Efésios nos interpela ao desvelar um projeto alternativo quando define a comunidade com critérios para além dos limites de etnia e religião, uma vez que usa a categoria de cidadãos (2,19) como critério de pertença a uma nova comunidade mestiça e inclusiva. A Carta mostra que a multiplicidade que há no corpo eclesial não prejudica sua unidade, porque a diferença não é mais motivo de separação. Essa mensagem nos impõe o desafio de sair dos exclusivismos religiosos e pensar que a diversidade também constrói humanidade. Instiga-nos a sair da dinâmica do ódio e da hostilidade, pois o muro cai, o ódio é morto, a Lei dos mandamentos é abolida, as distâncias são superadas, as divisões já não existem. Somos desafiados a sair das dinâmicas do ódio, das limpezas étnicas, das xenofobias, homofobias convidando-nos a uma harmonia de proporções cósmicas. Pois, “Ele é a nossa paz porque dos dois ele fez um só, derrubando, assim, a barreira da hostilidade. Os de longe e os de perto agora são um único ser em vez de dois, por meio de Jesus Cristo que é a paz” (2,14-15).
*Flávia Gomes é especialista em teologia bíblica, mestre em ciências da religião e graduanda em filosofia.
Fonte:domtotal.com

 


 

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