sábado, 6 de fevereiro de 2021

PROTESTOS POPULARES EM MYANMAR COM APOIO PRUDENTE DA IGREJA CATÓLICA

Cardeal Charles Maung Bo, arcebispo de Yangon, Myanmar. Foto: Arquidiocese de Yangon

Cada dia às 20h locais, o bater de panelas e de frigideiras tem pontuado a vida da capital e de outros locais de Myanmar, como forma de protesto contra o movimento militar que depôs e prendeu a chefe do governo, Aung San Suu Kyi, às primeiras horas da manhã da última segunda-feira, dia 1.
À barragem de ruído que ecoa pelos bairros de Yangon que, na cultura local, é entendido como ritual para expulsar os demónios, somam-se jornadas de oração nas igrejas cristãs, minoritárias no país.
Vigorosa tem sido a posição pública tomada pelo cardeal Charles Maung Bo em protesto contra mais esta interrupção de uma frágil democracia, com a tomada do poder por parte dos militares. No dia do golpe, ele encontrava-se longe da capital, em missão pastoral. O seu bispo auxiliar limitou-se a apelar à oração dos fiéis, sem, no entanto, condenar a operação militar.
Logo no dia 3 e já de regresso, em mensagem ao povo, Bo condenou os acontecimentos, dizendo que o golpe “chocou o mundo e o povo de Myanmar” e pedindo a libertação de Suu Kyi e dos líderes presos.
Apelou também ao diálogo e à não-violência na expressão dos protestos e pediu aos militares que tratem a população civil com “grande dignidade e paz”. “Que não haja violência contra o nosso querido povo de Myanmar”, disse ele, exortando ainda a que sejam respeitados os direitos dos representantes eleitos e ex-membros do governo que estão atualmente presos.
Entretanto a Igreja Católica declarou este dia 7, domingo, como um “dia de oração e jejum” pela paz no país. E o cardeal Bo recorreu à rede Twitter publicando uma mensagem que remete para uma notícia sobre as manifestações pacíficas no país, difundida pela Rádio cristã asiática Veritas, acompanhada de uma frase simples que não podia ser mais clara: “Apelo a cada um que se junte a qualquer forma de protesto não violento e pacífico, à luz dos Evangelhos e em nome de Deus”.
Logo a seguir, noutra mensagem, explicava o significado e alcance deste pronunciamento: “Não falo como político, mas como bispo, como mestre da fé católica e da lei moral. É meu dever ensinar sobre vida humana e dignidade, casamento e família, guerra e paz, as necessidades dos pobres e as exigências de justiça em nossos tempos. Hoje continuo a pregar os Evangelhos.”
Os responsáveis do golpe disseram que as medidas que tomaram ficaram a dever-se à inoperância do Governo face às alegações (infundadas) de fraude nas eleições de novembro, nas quais o partido de Suu Kyi obteve uma maioria muito confortável.

Deixar portas para o futuro
Nos últimos dias começaram, entretanto, a ser aliviadas as restrições aos ex-governantes e dirigentes do partido que estava no poder, e que tinham sido mantidos sob prisão num complexo governamental.
Representando a Igreja Católica uma pequena minoria da população do país (750 mil católicos em 72 milhões de habitantes, na esmagadora maioria budistas), que peso pode ter a voz do cardeal e da Igreja Católica?
Internamente, o impacto será escasso, significando apenas o reforço da oposição popular aos militares e o pedido da libertação da ex-chefe do Governo. Já externamente as coisas não são bem assim. Os militares sabem que um cardeal é um cardeal e que, por esse estatuto, “está a um telefonema do Papa Francisco”, na leitura dos acontecimentos feita pelo jornal digital Crux. Além de ele ser também o presidente da Confederação das Conferências Episcopais Católicas da Ásia.
Isto pode explicar, por outro lado, o cuidado posto por Bo nas palavras e nas ações. Ora, na mensagem divulgada no dia 3, ainda que condenando o golpe, não perdeu a oportunidade de elogiar o modo como os militares atuaram, quando anteriormente permitiram um governo que resultou de eleições e de deixar, de passagem, um recado para a primeira-ministra agora detida, ecoando uma crítica que lhe era feita de dialogar pouco com os militares. Por outro lado, o cardeal apelou aos países estrangeiros para não embarcarem em sanções ao novo regime, já que, segundo dá conta o Crux, elas terão sido pouco eficazes no passado e acabaram por fechar portas ao diálogo.
Ou seja, o cardeal tem procurado atuar de modo a deixar algumas portas abertas para o futuro.

Fonte:setemargens



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