sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

TEOLOGIA E CIÊNCIAS: UM DIÁLOGO A PARTIR DA CRIAÇÃO

Heliocentrismo abalou toda a compreensão antropológica que se tinha e sobre a qual se organizava a Cristandade. (Unsplash/Ross Sneddon)

Fundamentalistas cristãos não compreendem o verdadeiro significado da teologia da criação


O pensamento judaico-cristão sempre compreendeu o ser humano em um lugar de destaque em relação à toda criação. O texto bíblico que narra as origens aponta um papel deveras importante para o ser humano: dar nome a cada coisa, na natureza. Há um simbolismo forte nisso, pois nomear algo ou alguém denota certa autoridade-responsabilidade. Não é assim, quando os pais precisam escolher os nomes para seus filhos? O mesmo livro do Gênesis compreende o ser humano criado à imagem e semelhança de Deus, o que também reforça o olhar mais generoso para a compreensão que o humano tem de si mesmo, em meio ao mundo.

Um forte baque nessa compreensão se deu quando se descobriu que não era o Sol que girava em torno da Terra – o mundo dos humanos – e sim, o contrário. Esta, que ficou conhecida como a revolução copernicana, abalou toda a compreensão antropológica que se tinha até então, e sobre a qual se organizava a Cristandade. A reação eclesiástica frente a isso foi forte, de negação. Essa revolução antropológica, causada pela descoberta de um matemático, foi designada por Freud como a primeira ferida narcísica da humanidade, porque tirou o ser humano do centro absoluto de todas as coisas.

Por mais que a reação eclesiástica tenha sido de negação, num primeiro momento, não haveria como fugir desta realidade: esta era uma tese empiricamente verificável. A compreensão antropológica da Teologia, por sua vez, precisou se adequar a este novo paradigma. E não só: todo o pensamento humano, a partir de então, transformou-se. Ainda que o ser humano tivesse perdido seu lugar central absoluto, a modernidade – em sua guinada antropológica – reconheceu no humano um lugar importante, propiciado pela razão. E, com o surgimento das ciências modernas, percebemos que podemos muito: somos, verdadeiramente, criadores do mundo humano.

Nesse mesmo processo, deu-se também a segunda ferida narcísica da humanidade: a teoria da evolução, de Darwin. Com ela, uma compreensão criacionista de tipo fundamentalista veio abaixo. A Teologia, de sua parte, subsidiada pelos métodos de outras ciências, tal como da História, e da Literatura, por exemplo, teve chances de compreender, de modo profundo, o significado teológico da criação, a partir das narrativas bíblicas. Ainda hoje, porém, vemos uma confusão nos meios fundamentalistas cristãos, que não compreendem o verdadeiro significado da teologia da criação, considerando as definições científicas como heresia. É justamente sobre essa temática, focalizando um falso conflito entre teologia da criação e teoria evolucionista, que dedicamos os artigos deste nosso Dom Especial.

Atualmente, temos muito claro nos meios teológicos: as verdades de fé nunca podem ignorar as verdades científicas. Estas últimas são um contributo necessário para a verdadeira e profunda compreensão das primeiras. A teologia da criação é, pois, um bom exemplo disso! No primeiro artigo, Teologia sem diálogo com outras ciências, é Teologia?, César Thiago Alves propõe a necessária questão da relação da Teologia com outras ciências, para que tenha legitimidade. Daniel Couto propõe o segundo artigo, entrando mais propriamente em nosso tema: Criação ou Evolução, falso dilema, no qual descortina a relação entre a fé na criação e teoria científica, desconstruindo uma falsa oposição entre ambas. Por fim, Sinivaldo Tavares, no artigo Do mito à metáfora: a Criação na perspectiva bíblica, propõe uma reflexão teológica da criação, de modo que leve em conta as verdades propostas pelas ciências.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é Teólogo e Professor. Articula a editoria de religião deste portal. É co-autor do livro Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras (Saber Criativo, 2020). Contato: felipe.francisco.teologia@gmail.com.

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