sábado, 13 de março de 2021

A COMPREENSÃO DA SEXUALIDADE NO CRISTIANISMO

O dom de Deus também está nos fenômenos variados das vivências das sexualidades (Unsplash/Ramez E. Nassif)
Por um lado, a bíblia condena a desordem sexual; por outro, valoriza a vida sexual
César Thiago do Carmo Alves*
A sexualidade humana está na esfera do dom. Ela não se reduz a mera facticidade biológica. Antes, a sexualidade pode ser experimentada mediante educação, ritos, costumes, moral, religião, enfim, no contexto cultural. No Ocidente, para se pensar sobre a sexualidade recorre-se com frequência à tradição judaico-cristã, no entanto, poucos se atentam que no cristianismo primitivo a reflexão sobre ela bem como os comportamentos sexuais possuem pouca base bíblica. O ponto de partida é antes de tudo o contexto cultural no qual se inseria a comunidade. Grosso modo, até o Concílio Vaticano II, a moral cristã da sexualidade está muito mais pautada em uma matriz pagã do que nas raízes cristãs. Nesse sentido, pode-se destacar cinco influências sofridas pelo cristianismo.
A primeira influência consiste no fato de que os filósofos e teólogos durante séculos tiveram como base os conhecimentos biológicos de Aristóteles para elaborar uma ética sexual e matrimonial. O pensamento de Aristóteles consistia em afirmar que o homem produz o sêmen, portanto, a semente que contém em si todas as potencialidades para gerar uma pessoa.  No sêmen já está o nascituro que necessita apenas de um lugar apropriado para que se possa desenvolver. Desse modo, a semente cumpre plenamente sua função quando depositada na sementeira, isto é, nos órgãos reprodutores das mulheres. Assim, perder o sêmen de forma voluntária, não colocando-o no seu devido lugar  no intuito de atingir, naquela concepção, o seu fim natural, equivaleria a uma ação moral pecaminosa. Em última análise, uma espécie de homicídio. Nesse sentido, os atos sexuais para serem livres da culpa moral, deveriam ter como finalidade tão somente a procriação. A partir dessa perspectiva justifica-se também biologicamente a inferioridade da mulher.
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A segunda influência é o neoplatonismo. Ele acentua o dualismo corpo-alma. O corpo é a prisão da alma. O neoplatonismo ao apresentar uma visão negativa do corpo, por consequência, estende essa mesma visão para a sexualidade. A perspectiva cristã fundamentada nessa lógica propõe uma vida mais pura e mais dedicada à contemplação pela abstinência sexual.
A terceira influência vem do estoicismo greco-romano. O seu eco pode ser escutado até hoje no cristianismo. As paixões e o prazer são elementos que perturbam a alma pelo fato de serem contrários à razão. Nesse sentido, propõe como ideal de vida a recusa ao prazer, a ausência das paixões e a orientação da sexualidade somente para a procriação. É necessário dominar as paixões para se atingir a perfeição moral. Isso se consegue através da imperturbabilidade, isto é, dominando os sentimentos pela razão. Essa perspectiva está ainda na pregação de muitos religiosos.
A quarta influência é oriunda da filosofia dualista do gnosticismo. Ela postula a existência de um deus do bem e de outro do mal. Toda matéria e corpo tem sua origem no segundo deus. Assim, despreza e considera tudo o que vem da matéria como impuro e, por isso, condena o exercício e o prazer sexual. O ideal de vida para as almas nobres é a continência sexual.
A quinta e última influência é a maniqueísta. Está basicamente na mesma perspectiva da filosofia dualista do gnosticismo. O maniqueísmo afirma a existência de dois princípios opostos entre si, o bem e o mal. A luz e as trevas. O corpo é mau. A abstinência sexual no que tange a sexualidade é o fim da ética maniqueísta.
A partir dessas cinco influências o cristianismo desenvolveu paulatinamente sua compreensão a respeito das sexualidades humanas. Por muito tempo era preponderante uma perspectiva marcada pelo lugar de fala do homem. Ainda esse lugar de fala é forte, mas aos poucos se têm escutado também as mulheres.
Após o Concílio Vaticano II, com o impulso de retorno às Escrituras, buscou-se compreender o que a Palavra de Deus ensina a respeito das sexualidades. Descobriu-se que no Antigo Testamento, tanto no mundo semítico como também fora dele, era preponderante a ideia de que tudo o que se relaciona com o sexo torna impuro para o culto (Lv 15,18). O incesto, o adultério e o onanismo eram transgressões passiveis de morte (Dt 22,22; Lv 18,6-18 etc). A automutilação era punida com a exclusão da comunidade (Dt 23,2). Também eram proibidas a prostituição, a pederastia, a sodomia e a sedução das virgens. Por outro lado, o Antigo Testamento vê de forma positiva a sexualidade quando a vincula com a alegria e ao agradecimento (Dt 24,5; Ecl 9,9). No Novo Testamento a sexualidade deixa de ser considerada obstáculo para o culto. Para Jesus, a maldade vem do coração e é por isso que se destaca a condenação dos desejos pecaminosos (Mt 5,28). Louva-se a dignidade da castidade, elemento da vida cristã (2 Cor 7,1) e fruto do espírito Santo (Gl 5,23). Nova também é a apresentação que Jesus faz da virgindade como ideal de vida religiosa e moral (Mt 19,12). Por um lado, a bíblia condena a desordem sexual. Por outro, valoriza a vida sexual. A relação homem-mulher é exaltada desde o amor de Deus para com seu povo, ilustrando o amor esponsal do Senhor.
Indubitavelmente um avanço foi a Constituição Pastoral Gaudium et Spes que se desvencilhou da perspectiva de uma sexualidade voltada tão somente para a procriação. Inseriu a categoria da comunhão no amor (n.50). Desde o Concílio Vaticano II, a Teologia e os documentos oficiais da Igreja preocupam-se, em geral, salvo algumas exceções, com a valorização positiva da sexualidade como dimensão integral do ser humano.
Existe um desafio ainda que precisa ser enfrentado de forma séria e considerando os diversos saberes científicos que é reconhecer os fenômenos variados das vivências das sexualidades e atestar ali também o dom de Deus. Urge ainda a necessidade de uma escuta mais elaborada desses fenômenos, sobretudo dos que estão na contramão do padrão normativo. 
A sexualidade é dom do Criador e, quando a Igreja reconhece esse dom, é capaz de louvar a Deus por sua obra criadora, pois tudo o que ele fez é bom!
*César Thiago do Carmo Alves é doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da FAJE.

 Fonte:domtotal.com


 

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