terça-feira, 2 de março de 2021

IRAQUE VAI RECEBER UM PAPA PELA PRIMEIRA VEZ

A visita do papa Francisco será a primeira de um pontífice soberano ao Iraque (Ahmad Al-Ruabaye/AFP)


Afinal de contas, o que Francisco vai fazer na terra de Abraão? Saiba tudo sobre a viagem do pontífice

Pela primeira vez na História, um papa visitará o Iraque, a partir de sexta-feira, para confortar a minoria cristã, dizimada pelos conflitos e as dificuldades de vida, e estender a mão ao islamismo xiita.

No berço do cristianismo, que as guerras deixaram em sangue e que ainda é marcado pela violência do grupo Estado Islâmico (EI), o papa Francisco se encontrará com a mais alta autoridade religiosa de uma parte do mundo xiita, o grande aiatolá Ali Sistani, em Najaf, ao sul de Bagdá. É também a primeira viagem do soberano pontífice desde o início da pandemia de Covid-19, após ter sido vacinado, assim como a multidão de jornalistas e eclesiásticos que o acompanham.

Durante sua visita de três dias, o papa argentino de 84 anos visitará uma minoria cristã diversa, mas minimizada, em meio a uma população de 40 milhões de iraquianos exaustos após 40 anos de guerras e crises econômicas. A agenda do papa é tão ambiciosa quanto a viagem é histórica: até segunda-feira, o pontífice visitará uma catedral que foi palco da tomada de reféns em 2010 em Bagdá, a cidade de Ur, no deserto do sul do Iraque, Najaf e igrejas destruídas pelo EI em Mossul (norte).

Três dias, 1.650 km

O papa viajará cerca de 1.650 km, principalmente de avião. Ao longo de seu trajeto, foram expostas mensagens de boas-vindas e apelos de coexistência. As estradas foram pavimentadas, postos de segurança foram instalados e as obras de renovação foram realizadas em locais que até agora nunca tinham estado nos programas oficiais de visita.

"A mensagem do papa é dizer que a Igreja está do lado daqueles que sofrem", disse o arcebispo caldeu católico de Mossul e Aqra, Najeeb Michaeel. "O papa enviará uma mensagem forte mesmo aqui, onde crimes contra a humanidade e genocídio foram perpetrados", disse o prelado, que teve que fugir dos jihadistas em Mossul.

A comunidade cristã no Iraque é uma das mais antigas e diversas, na qual se destacam os caldeus – católicos –, os ortodoxos e os protestantes armênios. Na época da ditadura de Saddam Hussein (1979-2003) havia cerca de 1,5 milhão de cristãos, cerca de 6% dos iraquianos. Mas hoje não restam mais de 400 mil, 1% da população, estima William Warda de Hammurabi, uma ONG local de minoria. Antes do exílio, a maioria dos cristãos estava na província de Nínive, cuja capital é Mossul. As vitrines e os livros de orações estão em aramaico moderno.

Berço de Abraão

Quando os jihadistas do EI ocuparam Mossul em 2014, o papa Francisco apoiou a campanha militar internacional para reforçar as forças iraquianas. Então, ele disse que queria apoiar os cristãos do Iraque. Em 2019, o soberano pontífice condenou a repressão sangrenta de uma revolta popular contra o poder que abalou especialmente Bagdá e o sul do Iraque. É para esta região sul que o papa irá no sábado, para Ur, onde o patriarca Abraão nasceu, segundo a tradição. Mas o Iraque já estava nos objetivos do Vaticano antes mesmo da chegada do papa Francisco.

Em 2000, Saddam Hussein jogou um balde de água fria nos planos de João Paulo II, que esperava fazer uma peregrinação ao país. Dezenove anos depois, o patriarca da Igreja Caldeia do Iraque, Louis Sako, obteve do presidente iraquiano Barham Saleh um convite oficial dirigido ao papa para "curar" o país da violência. A Covid-19 atrasou a viagem, mas nem o confinamento, imposto durante toda a duração de sua visita, nem o anúncio de que o embaixador do Vaticano em Bagdá testou positivo para coronavírus mudaram os planos.

Bento XVI considera a viagem "perigosa"

O papa emérito Bento XVI, que vive em um mosteiro do Vaticano desde sua renúncia há oito anos, chamou de "perigosa" a viagem histórica de seu sucessor Francisco ao Iraque em uma entrevista publicada na segunda-feira.

"Acho que é uma viagem muito importante", disse o ex-papa de 93 anos em uma entrevista ao jornal Il Corriere della Sera.

"Infelizmente ele chega em um momento muito difícil que também torna sua viagem perigosa: por motivos de segurança e por causa da ambição. E ainda há a situação instável do Iraque. Acompanharei Francisco com minhas orações", acrescentou o alemão, que conversou com um fio de voz, segundo o jornalista que o entrevistou.

"Impacto enorme"

Várias equipes de segurança do Vaticano visitaram o Iraque, cenário de intensas tensões geopolíticas, para organizar a segurança. As comissões provinciais estão encarregadas de proteger o circuito do papa. Na manhã de sexta-feira, o avião do papa pousará em Bagdá com cerca de 150 pessoas a bordo, metade jornalistas.

Francisco estenderá mais uma vez a mão ao Islã. Em 2019, nos Emirados Árabes Unidos, ele assinou com o xeque Ahmed al Tayeb, imã de Al Azhar, a mais alta instituição do Islã sunita, um documento que incentiva o diálogo entre cristãos e muçulmanos. No Iraque, o papa Francisco irá ao encontro dos xiitas, a maioria no Iraque, mas a minoria no mundo – 200 milhões dos 1.800 milhões de muçulmanos – quando se encontrar com o grande aiatolá Ali Sistani.

Para o governador de Najaf, Louai al-Yasseri, é uma "visita histórica" enquanto Sistani, embora fisicamente ausente, se tornou nas últimas três décadas uma bússola para os xiitas do Iraque e do resto do mundo. "Fala-se de um líder religioso seguido por 20% da população mundial: sua visita significa muito, seu encontro com o grande aiatolá terá um impacto enorme".

A visita do papa ao Iraque em cinco etapas

Papa Francisco em pintura de parede de uma igreja de Bagdá, 22 de fevereiro de 2021 (Ahmad Al-Rubaye/AFP)

Bagdá, a fortaleza – Na sexta-feira, o papa fará um discurso na Catedral de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no bairro central de Karrada, em Bagdá. Em 31 de outubro de 2010, os jihadistas da Al-Qaeda realizaram neste local o pior sequestro contra cristãos do Iraque: 44 fiéis, dois padres e sete membros das forças de segurança morreram no ataque.

Os vitrais foram substituídos por placas de vidro com os nomes das vítimas e acima do altar pode-se ler: "Onde está sua vitória, morte?". Hoje, há cada vez menos fiéis, e as portas são protegidas por grandes blocos de concreto. Para a visita do papa, esses blocos foram pintados com a bandeira do Iraque e retratos do pontífice.

Nayaf, a cidade santa – O papa argentino, em um novo movimento de reaproximação com o Islã, visitará Najaf, 150 quilômetros ao sul de Bagdá. A cidade de 1.230 anos é um dos locais xiitas mais importantes, pois abriga o mausoléu com cúpula dourada do imã Ali, genro do profeta Maomé e figura fundadora do Islã xiita. Sob controle otomano até 1915, e depois sob domínio britânico, apesar das revoltas clericais, a cidade só foi capaz de celebrar suas peregrinações depois da invasão dos Estados Unidos em 2003. Antes, o presidente Saddam Hussein proibia as concentrações.

No sábado, um encontro excepcional acontecerá em Najaf: o chefe de 1,3 bilhão de católicos, o papa Francisco, de 84 anos, será recebido pelo grande aiatolá Ali Sistani, a máxima autoridade religiosa da maioria dos xiitas do Iraque e de numerosos xiitas no mundo. Este líder religioso de 90 anos, de aparência frágil e longa barba branca, não tem sido visto em público e recebe muito poucos dignitários em sua casa. Tudo isso torna esta "visita pessoal" ainda mais solene e excepcional.

Peregrinação de Abraão – Será o momento mais espiritual da visita e a principal razão pela qual o papa Francisco insistiu em visitar o Iraque: Ur, a cidade natal do patriarca Abraão segundo a Bíblia, é conhecida como "Ur dos Caldeus" no livro sagrado. Nesta cidade, localizada na província meridional de Zi Qar, o papa rezará no sábado com muçulmanos, yazidis e sabeus, dois monoteísmos que surgiram antes do cristianismo.

O local, atualmente em ruínas, foi fundado no sexto milênio a.C e se tornou uma das cidades mais importantes da Mesopotâmia Suméria. Seu principal monumento é o "zigurate", uma estrutura piramidal de vários níveis, descoberta no final da década de 1930.

Mossul e Qaraqosh, depois do EI – A província de Nínive (norte) é o berço dos cristãos do Iraque. A capital desta província, Mossul, esteve durante três anos, até 2017, sob o jugo do grupo jihadista Estado Islâmico (EI). Em Mossul, o papa Francisco visitará a Igreja Al Tahira no domingo. Os primeiros escritos que a mencionam são do século XVII, mas de acordo com vários historiadores, o templo poderia ter sido construído mil anos antes. Nos combates para expulsar os jihadistas em 2017, o telhado desabou, mas o portal com colunatas e as entradas laterais ainda estão de pé. Atualmente, a Unesco está reformando, assim como outras igrejas e mesquitas do centro histórico da cidade.

No mesmo dia, o pontífice visitará Qaraqosh, cerca de 30 km mais ao sul. Esta cidade, cuja existência remonta a antes do Cristianismo, é habitada por uma maioria cristã, que fala uma forma moderna de aramaico. Destruída em grande parte pelo EI, a cidade está hoje sob tensão devido à presença de vários grupos armados, ligados ao Estado.

Erbil, o refúgio – Erbil, capital do Curdistão iraquiano, no norte, será talvez uma das etapas mais agradáveis de sua viagem. No domingo, ele presidirá uma missa ao ar livre em um estádio, na qual já se inscreveram milhares de fiéis. Embora Erbil seja um feudo curdo, a cidade abriu suas portas para centenas de milhares de cristãos, yazidis e muçulmanos, fugindo do EI. Nesta cidade, fundada há mais de 4 mil anos, encontra-se uma imponente cidadela, tombada pelo patrimônio mundial da Unesco desde 2014.

AFP

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