sexta-feira, 19 de março de 2021

JOSÉ: MODELO DE DISCÍPULO DO REINO, NO EVANGELHO SEGUNDO MATEUS

Esposo de Maria é apresentado como discípulo justo, que discerne, dócil maleável, obediente, generoso e disponível

Obediência, generosidade e disponibilidade são fundamentais no discipulado do Reino (Vatican News)

Pe. Jaldemir Vitório SJ*

O evangelista Mateus inseriu o personagem José, "o esposo de Maria" (Mt 1,16), no início de sua catequese, e o descreveu como modelo de quem adere ao discipulado do Reino proclamado e vivido por Jesus de Nazaré. O leitor-ouvinte de sua catequese, ao longo da narração, deve se dispor a assumir atitudes idênticas às de José na relação com o querer divino, inspirando-se nesse discípulo ideal.

O texto evangélico referente a José (Mt 1–2) não se interessa em elaborar uma biografia dele e sim construir um personagem da narração capaz de inspirar quem se faz discípulo do Reino, com a disposição de se tornar "servo bom e fiel" (Mt 25,21).

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Limitando-nos à leitura de Mt 1,18-25, elencaremos algumas vertentes do discipulado exemplar de José, o pai adotivo de Jesus na catequese evangélica.

O discípulo justo

O adjetivo "justo" aplicado a José (Mt 1,19) sublinha sua disposição de praticar a vontade de Deus, sempre e em tudo, como se esperava dos justos (tzadikim) na tradição de Israel. O discípulo do Reino pede incansável ao Pai dos Céus: "seja feita a tua vontade, como no céu, assim também na terra" (Mt 6,10). Expressa, assim, o desejo e a disposição de adequar seu querer e sua ação aos desígnios divinos, em especial, nas situações difíceis e complicadas. Isso significa ser justo!

José vê-se às voltas com Maria que "lhe fora prometida em casamento" e "se encontrava grávida pela ação do Espírito Santo" (Mt 1,18). Tratava-se de uma situação embaraçosa na sociedade da época, regida por uma rigorosa Lei religiosa que proibia o adultério (Dt 5,18) e punia com o apedrejamento as mulheres que o cometessem (Dt 22,22-24). Logo, se cumprisse a Lei à risca, deveria submeter a esposa ao tribunal, conhecendo de antemão a sentença (Jo 8,1-11).

O cenário complica-se com a observação "pela ação do Espírito Santo", fato desconhecido de José. Parece-lhe estar diante de um adultério puro e simples, ao ignorar que algo divino e fora de seus horizontes se passava na vida da esposa. A Lei exigia ser aplicada e não havia motivo para não fazê-lo de imediato. A condição de "justo" movia-o a se adequar ao arbítrio de Deus. Entretanto, corria o risco de frustrar o intento salvífico caso sua justiça consistisse em cumprir a letra da Lei, de maneira empoderada.

O discípulo autêntico do Reino dispõe-se a se submeter ao querer de Deus, em particular, nas situações onde lhe falta clareza e parece se encontrar num impasse. São muitas as circunstâncias em que, como José, deve trilhar o caminho da justiça confrontado com decisões dramáticas a serem tomadas.

O discípulo que discerne

A fidelidade a Deus exige de José a prática do discernimento, em vista de uma decisão sintonizada com o plano divino. Agir por impulso, sob a pressão do sentimento de traição, seria incompatível com a condição de justo. Deixar passar tudo em branco, fechando os olhos para o evento, talvez desconhecido do público, jamais se justificaria para um homem religiosamente fiel. Caso fosse conhecido e não submetesse a esposa ao tribunal, daria margem para ser considerado transgressor da Lei – desobediente a Deus – por poupá-la da punição devida. Entrementes, caso a submetesse ao tribunal, com sentença de morte certa, poderia ser tachado de cruel. Por outro lado, a decisão de "não querer denunciá-la publicamente, mas despedi-la em segredo", para não difamá-la (Mt 1,19), não estava prevista na Lei e macularia sua condição de homem justo. Corria o risco de levar a pecha de inconsequente e sem caráter. José estava metido numa enrascada!

O diálogo com o anjo do Senhor (Mt 1,20-21) corresponde ao processo de discernimento levado a cabo no intuito de chegar à melhor decisão, correspondente ao pensamento de Deus. Seria preciso que o coração de José estivesse todo aberto para acolher, de maneira incondicional, o que o Senhor lhe pedisse, seja qual fosse o preço. E Deus lhe pedia algo muito exigente para os padrões religiosos e morais da época: assumir a paternidade de um filho que não gerou.

O discípulo do Reino, em hipótese alguma, age por impulso, tampouco movido por razões arbitrárias. Antes, nos momentos difíceis, quando deve tomar decisões importantes, valoriza o discernimento como tempo de ponderar tudo diante de Deus, com o desejo de ouvir sua voz, como José na escuta do anjo do Senhor. A voz divina faz-se ouvir de muitas maneiras, de modo especial, nas palavras das pessoas carregadas de sabedoria espiritual e experts na arte de discernir o desejo de Deus no emaranhado de vozes e apelos em que o ser humano se vê enredado. Nas encruzilhadas difíceis da vida, vale a pena escutá-las!

O discípulo dócil e maleável

O inesperado da conjuntura levou José a tomar uma decisão: "não querendo denunciar sua esposa publicamente, pensou em despedi-la em segredo" (Mt 1,19). Quiçá estivesse longe de perceber todas as implicações do caminho escolhido para enfrentar a complicada conjuntura. A condição de justo moveu-o a entrever uma saída que, afinal, o levaria a carregar a pecha de esposo infiel e irresponsável, numa sociedade pequena, onde as relações sociais eram controladas com rigor. Haveria de se tornar uma vergonha para a família e dever vagar desnorteado, cuidando para não ser flagrado por algum conhecido, enquanto a reputação da esposa sairia ilesa.

O diálogo com o anjo do Senhor exigiu dele enorme docilidade e maleabilidade que o levassem a refazer a decisão e encaminhar os acontecimentos na direção apontada por Deus. Se a decisão primeira colocava-o no incômodo cenário de esposo leviano, a solicitação divina comportava seus percalços. Afinal, só uma fé profunda haveria de permitir-lhe assumir a paternidade de um filho "gerado do Espírito Santo", ao qual deveria dar "o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados" (Mt 1,20-21). A missão do filho, também, exigia dele ser acolhida na fé. Como imaginar um pobre galileu de Nazaré, assumindo a tarefa grandiosa de Salvador do Povo, quando lhe faltavam as credenciais para ser reconhecido como tal?

A narração evangélica diz que o encontro de José com o anjo do Senhor aconteceu durante um sonho (Mt 1,20). Essa experiência repete-se outras vezes, em circunstâncias dramáticas de sua vida (Mt 2,13.19.22). Os sonhos, na concepção da época, eram considerados canais de comunicação privilegiada com a divindade, que davam acesso a informações impossíveis de serem obtidas por outras vias. Por outro lado, o sono, evocando a morte, coloca o ser humano em estado de total disponibilidade para Deus. José, dormindo e sonhando, estava inteiramente nas mãos de Deus, cuja vontade se dispunha a fazer.

O discipulado do Reino exige capacidade de se dispor a responder a Deus, relativizando os próprios planos. Quem se apega demais aos seus pontos de vistas e decisões, sem a disposição de abrir mão deles, estará impossibilitado de ser discípulo. O desafio consiste em não cruzar os braços e esperar pela voz de Deus, e sim tomar decisões, deixando a porta aberta para eventuais reformulações.

O discípulo obediente, generoso e disponível

José pratica uma obediência exemplar. "Quando acordou, fez conforme o anjo do Senhor tinha mandado e acolheu sua esposa" (Mt 1,24) sintetiza a disposição de obedecer em tudo a Deus. Seu "sim" acontece em forma de ação imediata, dispensando as palavras. Em momento algum José fala! Antes, ao "ouvir", segue-se o "fazer". O sono profundo impedia-o de litigar com o anjo do Senhor, quando a gravidade da conversa daria muito o que falar. Basta-lhe tomar conhecimento do projeto divino para transformá-lo em pauta de ação.

Seria um equívoco considerar José uma espécie de marionete nas mãos de Deus, que lhe atropelara a liberdade. A catequese evangélica tem como ponto de partida a convicção de ser possível o ser humano "escutar e praticar" a vontade de Deus, mesmo quando lhe é pedido algo, à primeira vista, superior à capacidade de suportar, como era o caso da concepção por obra do Espírito Santo, algo desconhecido na religião da época. José não dá mostras de agir a contragosto, acuado, pressionado ou duvidoso. Age com a liberdade de quem sabe o que faz, colocando-se à inteira disposição de Deus, dando tudo de si, com total generosidade. Ele conhecia as bases em que se construía sua relação com Deus, donde sua disposição para radicalizar a vivência da fé.

Obediência, generosidade e disponibilidade são fundamentais no discipulado do Reino. Com Deus não se joga com cartas marcadas, pois o discípulo reza para que a vontade divina seja o imperativo de suas ações, sempre e em toda parte (Mt 6,10). Tal disposição vale, de modo muito especial, para as exigências que desafiam a capacidade, os limites e a suportabilidade humana. Os discípulos mostram-se autênticos ao serem capazes de abraçar o projeto de Deus, até às últimas consequências. Os apelos de Deus vão sempre na linha do serviço ao próximo, em suas carências, como prática da misericórdia e do cuidado. Pedem a doação da vida como maior prova de amor (Jo 15,13). Aqui está o auge do discipulado. Aí chegou o Mestre Jesus de Nazaré!

*Jaldemir Vitório é padre jesuíta, doutor em Exegese Bíblica e professor da FAJE 

Domtotal

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