sexta-feira, 12 de março de 2021

MÁRIO SERGIO CORTELLA: EM TEMPOS DE DÚVIDAS, EXERCITE A 'ESPERANÇA ATIVA'

Filósofo e educador Mário Sergio Cortella fotografado no Teatro Marista, em Londrina, Paraná (2014) (Ricardo Chicarelli/Estadão Conteúdo)
Na aula magna que abriu oficialmente o ano letivo, o filósofo trouxe questionamentos para situações de incerteza, como a que vivemos agora com a pandemia
Isabela Amorim Santiago
"Momentos graves são também momentos grávidos, isto é, contém dentro de si uma possibilidade de alternativa". Com questionamentos em um momento em que o mundo inteiro se vê rodeado por dúvidas, o filósofo e professor Mário Sergio Cortella fala de 'esperança ativa', mesmo com tantas dificuldades e incertezas.
Nesta sexta-feira (12), a Escola de Direito Dom Helder Câmara e a Escola de Engenharia e Ciência da Computação receberam Cortella para dar uma palestra inaugural do ano letivo de 2021. 
De modo on-line os reitores das respectivas escolas, Paulo Umberto Stumpf e Franclim Brito deram as boas vindas a toda a comunidade acadêmica, em especial para os novos graduandos dos cursos de Direito, Direito Integral, Engenharia e Ciência da Computação. 
Para o professor Paulo, a prioridade no momento para todos é a saúde e por isso a faculdade segue, desde março de 2020 em regime remoto. Depois de saudar os alunos, os reitores agradeceram a participação de Mário Sergio Cortella e convidaram-no para dar prosseguimento à aula inaugural.
Cortella agradeceu os elogios e começou a aula magna trazendo um questionamento que é também o título de um de seus livros mais famosos: Não nascemos prontos. "Eu tenho três livros que se iniciam com 'não'. Não se trata de um 'não' de negação, mas de advertência. Esse livro é contra a ideia de que quanto mais a pessoa fica velha, mais ela vive. Para isso, ela teria que ter nascido pronta e ir se gastando. Isso não é verdade. Gente nasce não pronta e vai se fazendo. Eu não sou exatamente como eu era, mas não sou completamente diferente daquilo que já fui".
Tal pensamento faz parte de uma indagação do filósofo para refletir o atual momento vivido em relação à pandemia de Covid-19. A necessidade de refazer o nosso olhar sobre o mundo a nossa volta e de modificar atitudes e comportamentos veio do "tranco" que recebemos, uma situação abrupta onde todos nós fomos obrigados a conviver.
Nessa sentido, o professor une a reflexão sobre pandemia, novos horizontes e dúvidas. Seu primeiro exemplo é a frase de Millôr Fernandes: "se você não tem dúvidas é porque está mal informado". "Sim esses são tempos de dúvidas". Em seguida, Cortella trouxe ao contexto Renne Descartes, tido como um grande pensador da dúvida metódica - "que não é a duvida pela dúvida, não é a dúvida pela insolência. É a duvida como forma de fundamentar certezas. É a dúvida como maneira de entender que o fato de eu pensar algo não significa que aquilo esteja correto".
"Nós estamos vivendo um momento de muitas dúvidas. A exemplo de uma música de Adriana Calcanhoto, nos estamos vivendo um momento em que 'nada ficou no lugar'. Há uma mudança fortíssima no nosso modo de viver e de pensar. Nós estamos vivendo a emergência de múltiplos paradigmas", explicou o filósofo. E é a partir desse momento de emergência - entendida como "vir a tona" e "lidar com a imediaticidade, com presteza para dar conta do que está a nossa volta" - nós devemos colocar em jogo as dúvidas de modo partilhado, mantendo assim a esperança ativa.
Por ter sido pupilo e ter tido uma convivência pessoal com Paulo Freire, Mário traz o famoso educador brasileiro para dar continuidade a ideia de esperança viva. "Paulo Freire dizia algo que tem a ver com esse momento que nós temos - novos tempos e novas atitudes -, é preciso ter esperança, mas tem que ser esperança do verbo esperançar e não do verbo esperar. É ir atrás, é buscar, é não desistir".
É daí que partem os novos paradigmas que devem nos colocar em estado de prontidão para que possamos "aprender o que não sabemos, para buscar aquilo que ainda não temos, para ter humildade para não imaginar que já estamos prontos, pra não cairmos no risco da mediocridade. Porque uma pessoa medíocre não é aquela que pouca coisa sabe, mas é aquela que acha que já sabe de tudo e, porque assim acha, ela age como se não tivesse que aprender outras coisas".
O professor Cortella sinaliza que a gravidade da atual situação não pode ser desconsiderada, nem tampouco podemos fingir a sua existência, mas que o contexto em si deve ser visto como uma oportunidade para alcançar novos voos, para ter outros aprendizados e enxergar além do que está diante do nosso nariz.
"Momentos graves são também momentos grávidos, isto é, contém dentro de si uma possibilidade de alternativa. Há pessoas, contanto, que só enxergam a gravidade do momento, em vez de ver a gravidez que ele também contém. Em outras palavras, a possibilidade de que ali se tire algo positivo, benéfico para cada um e pra todas as pessoas. Nós temos que buscar nele a gravidez que ele contém: a possibilidade de gestar um novo momento".
Portanto, não se trata de tapar os olhos para a situação - que, de fato, é difícil e bastante ameaçadora -, mas de não se deixar ser derrotado de modo definitivo.
"Daí a esperança ativa, daí a capacidade de ir buscar, de ir atrás reinventar, de criar, de fazer de outra maneira. Emanoel Kant, grande pensador alemão, dizia algo especial 'mede-se a inteligência de uma pessoa pelo número de número de incertezas que ela é capaz de suportar'.
Num momento de tantas incertezas e dúvidas, o professor Mario Sergio Cortella nos convida a exercer essa reflexão e tirar deste momento, que aparenta ser tão sombrio, algo que possa nascer de novo.
"Há três caminhos para o sucesso: ensinar o que se sabe - isto é, generosidade mental -, praticar o que se ensina - ou seja, coerência ética - e perguntar o que se ignora - isto é, humildade intelectual. Essas são três trilhas virtuosas para que a gente tenha a vereda no grande sertão: generosidade mental, coerência ética e humildade intelectual. E a gente sabe que, mesmo que se tenha todo esse momento turbulento e complexo, nós sabemos que a gente, de maneira alguma, se deixou derrotar. Já basta a dificuldade do momento para que ele também tire de nós a capacidade da esperança ativa, da iniciativa, da possibilidade de honrar não só a nossa vida como também a possibilidade termos o nosso melhor naquilo que fazemos. Por isso, novos tempos, novas atitudes!".

Redação Dom Total

 


 

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