sexta-feira, 26 de março de 2021

O CUIDADO DO POBRE É VIVÊNCIA AUTÊNTICA DO REINO

A solidariedade, que passa pela partilha, implica em uma dimensão concreta da busca pela justiça social (Ajuda à Igreja que Sofre)

Se o cristão busca se parecer com o Cristo, deverá se esvaziar


Gilmar Pereira*

Entre os cristãos ainda persiste a terrível mania de ler um texto sem entender o seu contexto, o que é a base do fundamentalismo religioso. Por isso é difícil compreender quando a Igreja atesta como evangélica a opção preferencial pelos pobres. "Será que os ricos não têm chance de 'ir para o céu'?", alguns se questionam sem a devida hermenêutica bíblica.

Bem, se o cristão busca se parecer justamente com o Cristo, ele deverá tomar o princípio descrito no segundo capítulo da carta de Paulo aos Filipenses, no qual se apela a que se tenha o agir e pensar daquele a quem se segue. Como está escrito nos versículos de 6 a 8, o Cristo "não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!" (6-8).

Nessa passagem bíblica se encontra o cerne do discipulado: o esvaziamento, o sair de si. De fato, quando se fala do amor como mandamento maior, há de se entender que essa prática depende do sair de si, do esvaziar-se, para ir ao encontro do outro. Só pode acolher a alteridade quem não estiver cheio de si, o que consiste na misericórdia (miseris cordis), esse colocar a miséria alheia no próprio coração, isto é, receber o outro em seus defeitos e limites. O mesmo se diz da compaixão (com pathos), que se expressa na capacidade de se colocar no lugar do outro e sentir com ele, um descentrar-se que leva à identificação com a alteridade.

Nesse sentido, se o esvaziar-se é o fundamento do amar, seu oposto, o pecado, é um fechar-se em si cujo princípio é o egoísmo. Esse autocentramento leva à negação do outro e à absolutização do próprio querer e interesse, o que tem como consequência o rompimento das relações de solidariedade. Por isso Cristo prega como caminho de seguimento a afirmação do "tu". É na alteridade que o indivíduo tem condição de sair do fechamento em si, ao mesmo tempo em que, ao se doar, reconhece-se como dom. Desse modo, o "renunciar-se a si mesmo e tomar a cruz" não implica num masoquismo autodepreciativo. Ao contrário, só pode se doar que sabe do valor que tem, ao mesmo tempo que vê no outro alguém digno de receber o dom de si.

Em contraposição, o enriquecimento tem como princípio o grande acúmulo de bens para além do necessário e a confiança exagerada nestes como aquilo que possibilita segurança e felicidade. Nesse sentido, o rico desconhece o valor do próprio ser, uma vez que busca fora o que só encontra dentro. Não pode fazer a experiência do Reino, que é alegria, justiça e paz no Espírito (Rm 4,17). Não pode ser alegre porque não se satisfaz, vive no medo da possibilidade da perda. Não vive na justiça, pois faz a balança social pender exclusivamente para o seu lado. Não vive a paz (plenitude de todos os bens) porque embora tenha muito, está vazio de si e preso na iminência da falta. De fato, o rico não entra na dinâmica do Reino de Deus. Todavia, alguém com poucas posses pode se fazer mais rico do que alguém com muitas, dado o seu apego.

Apesar disso, a solidariedade, que passa pela partilha, implica em uma dimensão concreta da busca pela justiça social. Isto é, embora a pobreza evangélica tenha a característica de pobreza de espírito, ela se resolve de maneira prática. O que sobra a uns é o que falta a outros. Assim, seria fácil doar a quem pode retribuir. Por isso os objetivamente pobres são os primeiros a quem se deve dar, porque amar a quem não pode retribuir é mais exigente, torna o amor mais radical.

Assim, a Igreja faz opção pelo pobre não porque alguém é bom pelo simples fato de lhe faltar condições materiais, mas porque é sua missão fazer o que o Cristo fez. O amor se expressa na condição objetiva de cuidar de quem nada tem. Com razão "há mais alegria em dar do que em receber" (Atos 20,35). E isso tem mais a ver com a liberdade em relação aos bens do que, necessariamente, em não ter nada, mas o acumulo excessivo é sinal objetivo da situação do coração, pois onde ele está, aí está o seu tesouro. Neste especial de religião tratamos da justiça do Reino na perspectiva do cuidado do próximo empobrecido.

Eduardo Rodrigues Calil, no artigo Um Deus parcial, trata da justiça divina, evidenciando seu aspecto social, sobretudo no cuidado de quem nada tem. O autor atesta que "o Deus de Jesus tem entranhas de compaixão que se contorcem com o sofrimento do pobre".

Solange Maria do Carmo toma a reflexão lucana sobre a parábola do rico e de Lázaro para tratar das relações de desigualdade na ótica do Reino de Deus no texto Inversão escatológica. Ali, mostra-se como aquilo que acontece no relato bíblico encontra eco na contemporaneidade, principalmente na crise provocada pela pandemia.

Felipe Magalhães Francisco busca esclarecer o significado de ser mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico acessar o Reino de Deus. O texto O buraco da agulha cada vez mais estreito desenvolve a visão bíblica sobre a riqueza, buscando abrir o leitor para a perspectiva teo-lógica da preferência pelos pobres.

*Gilmar Pereira é doutorando em Mídia e Cotidiano e está em formação psicanalítica. É mestre em Comunicação e Semiótica, bacharel e licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, possui formação em Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante, com grande experiência no campo religioso, e tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito. 

Fonte: Domtotal

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