sexta-feira, 5 de março de 2021

PAI NOSSO: UMA ORAÇÃO COMPROMETEDORA

Chamar Deus de Pai nos leva a uma consciência filial e fraternal (Unsplash/Kelly Sikkema)


Na oração do Pai Nosso está o centro do ensinamento de Jesus, seu programa de vida e a expressão de sua relação profunda e íntima com Deus Pai


Antônio Ronaldo Vieira Nogueira*

A oração cristã nos põe numa relação amorosa com Deus. Nessa relação abre-se espaço para a confiança, transparência e liberdade. Ela corre, porém, o risco de ser viciada quando fazemos dela uma tentativa de dobrar Deus à nossa vontade (tantas vezes tão longe do Evangelho...), de querer que ele resolva magicamente nossas pendências e responsabilidades, quando "ostentamos" diante de Deus nossos problemas como se fôssemos os únicos sofredores do mundo.

Para não cairmos nessas tentações, temos um modelo de oração, aquela que Jesus nos ensinou e deixou como modelo distintivo da vida dos seus seguidores. O Pai Nosso é considerado a síntese do Evangelho, nele está o centro do ensinamento de Jesus, seu programa de vida e a expressão de sua relação profunda e íntima com Deus Pai. A estrutura da oração é bem simples: inicia com uma invocação que mostra claramente a quem nos dirigimos: "Pai Nosso que estais nos céus". Depois, seguem-se duas partes. Na primeira, apresentam-se três desejos centrados em Deus: seu nome, seu Reino e sua vontade. Na segunda, apresentam-se necessidades do ser humano: "dai-nos o pão", "perdoai-nos as nossas ofensas", "não nos deixeis cair em tentação", "livrai-nos do mal". Façamos, pois, uma breve meditação.

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A oração começa com a invocação "Pai Nosso". Com ela, entramos na relação com Deus tal como Jesus. Ele nos ensina a chamar Deus de "Abba" (papai). Jesus se relaciona com Deus na proximidade, confiança, ternura e afeto da criança pequena. Assim, também nós podemos nos dirigir a Deus com a mesma confiança e segurança, sabendo que Ele está sempre atento às nossas necessidades e que nos ama incondicionalmente, compreende e perdoa, pois nos quer como seus filhos e filhas.

Ao invocar a Deus como Pai, precisamos ter, em primeiro lugar, essa consciência de filhos e filhas e, portanto, fazer desaparecer todo temor para nos abandonarmos com confiança e alegria em Deus, nosso Pai querido e amoroso: "vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus. E nós o somos!" (1 Jo 3,1). Precisamos ter também a consciência de que somos irmãos e irmãs. Toda a oração é feita no plural, pois não podemos nos dirigir a Deus Pai sem trazer, diante de nós, todos os irmãos e irmãs com seus sofrimentos e misérias. Isso é bem recordado pelo papa Francisco: "Não existe oração elevada a Deus, que não seja a prece de uma comunidade de irmãos e irmãs, o nós: vivemos em comunidade, somos irmãos e irmãs, constituímos um povo que reza, "nós". [...] Se não se der conta de que ao seu redor há tantas pessoas que sofrem, se não sentir pena pelas lágrimas dos pobres, se estiver habituado a tudo, então significa que o seu coração... como é? Murcho? Não, pior: é de pedra. Neste caso é bom suplicar ao Senhor que nos sensibilize com o seu Espírito e enterneça o nosso coração: 'Senhor, enternecei o meu coração!'" (Catequese sobre o Pai Nosso, n.6, em 13/02/2019).

A esse Pai Nosso, dizemos que está nos céus. Isso significa que Ele não é um objeto a nosso dispor e que podemos ter sempre à mão quando sentirmos necessidade. Deus, como Pai cheio de amor e bondade, não nos substitui na nossa tarefa e responsabilidade, mas nos sustenta com seu amor e sua graça para que possamos construir o mundo segundo seu projeto amoroso e salvífico.

O primeiro pedido é que o nome de Deus seja santificado. O nome de Deus lembra sua bondade e recorda sua presença salvadora e libertadora na história do seu povo. O pedido indica que só Deus é o Santo e que seu povo escolhido, para honrar seu nome, deve ser santo como Ele é Santo. E se Deus é chamado de Pai, para honrar o nome do Pai, é preciso honrar a todos os filhos, nossos irmãos: "quem não ama seu irmão a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar" (1Jo 4,20). Santificar o nome de Deus Pai consiste, pois, em viver como filhos na fraternidade com os outros.

A segunda invocação pede a vinda do Reino de Deus. Deus reina quando entre seus filhos e filhas é vivida a justiça, o amor e a fraternidade. Na vida e prática de Jesus, o anúncio da vinda do Reino se fazia quando aqueles, a quem a sociedade descarta e lança fora, sentiam a presença amorosa de Deus a dar-lhes vida e dignidade: "os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Notícia" (Mt 11,5). Assim, "hoje e sempre, 'os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho' [Bento XVI], e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer" (EG 48). O Reino de Deus é, ao mesmo tempo, dom de Deus, pois é Ele quem o realiza, promessa, porque tem sempre um excesso que extrapola a história, e tarefa, porque nós contribuímos para que já agora haja os sinais de sua presença transformadora.

O terceiro pedido está em estreita relação com o anterior. A vontade de Deus é a salvação do ser humano, ou seja, sua participação na vida divina. O nosso grande desejo deve ser, portanto, que o projeto salvador de Deus se torne realidade. Ela não se opõe nem violenta a nossa vontade, pois o que estamos pedindo é a salvação nossa, de todos, na medida em que, como Jesus, nos dispomos a uma vida de total obediência ao Pai na entrega da própria vida por todos os seus filhos, nossos irmãos.

Chega-se, assim, à segunda parte do Pai Nosso com os quatro pedidos que dizem respeito ao ser humano e suas necessidades. A primeira delas é a de pão, que representa o alimento em geral. Trata-se da necessidade básica mais gritante e que não pode parar de ser pedido enquanto não houver partilha que gere condições de vida digna para todos: "O pão que pedimos ao Senhor na oração é o mesmo que um dia nos acusará. Repreender-nos-á o pouco hábito de o repartir com quem está próximo, o pouco hábito de o repartir. Era um pão oferecido à humanidade, e ao contrário foi comido só por alguns: o amor não pode suportar isto. O nosso amor não o pode suportar; nem sequer o amor de Deus pode suportar este egoísmo de não repartir o pão". (Catequese sobre o Pai Nosso, n.11, em 27/03/2019).

O seguinte pedido relaciona o perdão de Deus com nossa capacidade de perdoar. Não se trata de nos apresentarmos como modelo de perdão para Deus. O perdão do Pai é sempre gratuito e nos precede, sem merecimento algum de nossa parte. Esse perdão, essa experiência gratuita de amor, é que suscita em nós a capacidade de perdoar, reproduzindo para com os irmãos a mesma atitude que Deus Pai tem para conosco: "A relação de benevolência vertical por parte de Deus desvia-se e é chamada a traduzir-se numa relação nova que vivemos com os nossos irmãos: uma relação horizontal. O Deus bom convida-nos a sermos todos bondosos" (Catequese sobre o Pai Nosso, n.13, em 24/04/2019).

O penúltimo pedido é que Deus não nos deixe cair em tentação. Expressamos nossa consciência de que somos frágeis e pedimos ao Pai que nos sustente para não cairmos no pecado, na tentação radical e definitiva de recusar o seu Reino e seu amor e abandonarmos o seguimento de Jesus Cristo. Isso implica a necessidade de vigiar sobre nossa vida para não cedermos às forças sorrateiras do pecado e, ao mesmo tempo, orar para que sejamos sempre sustentados pelo amor de Deus a fim de que amemos sempre.

O último pedido é que o Pai nos livre do mal. Com ele, expressamos que sofremos sob as forças do mal que se estruturam contra o Reino de Deus e estão presentes no mundo. Nesse sentido, o termo grego original, mais do que livrar, indica a prece de que sejamos arrancados das estruturas de pecado e de mal: "arrancou-nos do poder das trevas e transportou-nos para o Reino de seu filho amado no qual temos a libertação, o perdão dos pecados" (Cl 1,13). Ao pedirmos a libertação do mal, devemos estar dispostos a enfrentá-lo, como Jesus.

Ao rezar o Pai Nosso como Jesus ensinou e viveu, vencemos o intimismo e a indiferença. Chamar Deus de Pai nos leva a uma consciência filial e fraternal. Experimentamos seu amor paterno, na força e poder do Espírito, acolhemos o dom do amor vivido na própria doação, como Jesus. Em tempos tão difíceis em que vivemos, pronunciemos com confiança cada uma dessas palavras que nos leva a um compromisso de amor, pois aquilo que rezamos é como queremos viver.

*Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte-CE. Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) ?" Belo Horizonte ?" MG. Professor e Coordenador do Curso de Teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) ?" Fortaleza ?" CE. 

Domtotal

Um comentário:

  1. De fato se rezamos com esta consciencia. A oração terá o seu verdadeiro sentido

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