sexta-feira, 2 de abril de 2021

A RESSURREIÇÃO DE JESUS COMO CAMINHO DE COMPREENSÃO DE SUA VIDA E MISSÃO



A fé na ressurreição consiste em fazer memória da intervenção de Deus quando toda esperança perecia perdida

A ressurreição de Cristo dá força e significado a cada esperança humana (Unsplash/Thays Orrico)

Rodrigo Ferreira da Costa*

Creio na ressurreição da carne; e na vida eterna... Com essas palavras firmes e convictas, a comunidade cristã confessa, em cada liturgia, a sua fé na vitória da vida, reanima a sua esperança e celebra a confiança no "Deus de vivos" (Lc 20,38). Mas como manter a fé no Deus da vida em meio a tantas mortes? Parece que vivemos uma eterna sexta-feira da Paixão. O "cheiro" de morte pode ser sentido por toda parte. Não vemos luz! Falta-nos esperança! Será que Deus abandonou o seu povo? "Acaso Deus vai esquecer-se de ter compaixão, ou sua ira, vai reter a sua ternura?" (Sl 77, 10). A fé na ressurreição consiste justamente em fazer memória da intervenção de Deus quando toda esperança perecia perdida. Quando a morte já cantava a sua vitória, a vida ressurgiu. Deus não deixou envergonhado Aquele que pôs N'ele a sua confiança. Pelo contrário, a ressurreição de Jesus foi o sim de Deus confirmando toda a sua vida e missão. Aquele que passou a sua vida no mundo fazendo o bem, não foi esquecido no reino dos mortos. Ele ressuscitou. A ressurreição é um sim à vida, ao amor e à justiça. O mal não prevalecerá. A mentira será desmascarada. O ódio e a violência serão derrotados. O sofrimento e a dor, não existirão mais. Pois o Senhor vive e quer-nos vivos!

Pensar a ressurreição de Jesus como caminho de compreensão de sua vida e sua missão nos livra de cairmos no pessimismo histórico-existencial, que nos faz olhar para a nossa fragilidade com um juízo negativo, esquecendo-nos de que a história da salvação realiza-se, "esperando contra toda esperança" (Rm 4, 18). "Muitas vezes pensamos que Deus conta apenas com a nossa parte boa e vitoriosa, quando, na verdade, a maior parte dos seus desígnios se cumpre através e apesar da nossa fraqueza" (Papa Francisco. Patris Corde). A outra tentação é a de pensar que ressurreição de Jesus foi o final feliz, já esperado, de uma vida trágica. Como nos recorda Antônio Pagola: "ao longo dos séculos divulgaram-se formas muito diferentes de 'imaginar' o céu. Às vezes considerou-se o paraíso como uma espécie de 'país das maravilhas' situado além das estrelas, o happy end do filme terreno, esquecendo praticamente a Deus como fonte da realização definitiva do ser humano".

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O Catecismo da Igreja Católica (n. 651) nos lembra que "a Ressurreição constitui, antes de mais nada, a confirmação de tudo o que o próprio Cristo fez e ensinou. Todas as verdades, mesmo as mais inacessíveis ao espírito humano, encontram sua justificação se, ao ressuscitar, Cristo deu a prova definitiva, que havia prometido, de sua autoridade divina". Ou seja, a Ressurreição é a plenitude da Encarnação; é a nova criação realizada em Cristo; é o cumprimento das promessas de Deus de "novos céus e nova terra" (Is 65, 17-25), um mundo sem luto e sem lágrimas, onde reina a paz e justiça, alegria e vida sem sombra e sem fim. Por isso, mesmo sendo um evento trans-histórico, a ressurreição de Cristo dá força e significado a cada esperança humana, a cada expectativa, desejo e projeto.

Parece que o nosso povo, marcado pelo sofrimento e a morte, identifica-se mais facilmente com a Paixão e morte de Cristo do que com a sua Ressurreição. Basta olhar as nossas celebrações pascais, muitos preferem a liturgia da sexta-feira da Paixão ao domingo pascal. Quantas pessoas que se vergam à tristeza por causa das graves dificuldades que têm de suportar, mas aos poucos é preciso permitir que a alegria da fé comece a despertar, como secreta, mas firme confiança, mesmo nas piores angústias. Como nos recorda o papa Francisco, "há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa". Isso, porém, contradiz a nossa fé, porque o encontro com o Ressuscitado é sempre marcado pela alegria (Jo 20,20), e por onde passavam os discípulos do Senhor "havia grande alegria" (At 8,8). Como escreve Georges Bernarnos: "o contrário de um povo cristão é um povo triste". Isso porque, pela fé, já vencemos o inimigo maior, a morte. Neste sentido, São Paulo VI chega a pedir que "as comunidades cristãs se transformem em lugares de otimismo, onde todos os membros se entreguem resolutamente ao discernimento dos aspectos positivos da pessoa e dos acontecimentos".

Crer com alegria não significa maquiar a realidade, muito menos negar a Cruz, pois o Ressuscitado traz em seu corpo glorioso as marcas do Crucificado (Jo 20, 26-29) e quer que toquemos suas chagas na sofredora do outro. Crer com alegria, com o rosto pascal, é experimentar a felicidade dos pobres, que mesmo em meio às angústias e lidas, não perdem a esperança, nem se deixam abater. Crer com alegria é contemplar o túmulo vazio, a cruz transvasada de luz; é deixar-se alcançar pelo Ressuscitado que entra em nossas noites mais escuras, caminha, escuta, dialoga e se faz nosso companheiro de estrada (Lc 24,13-35).

Crer na ressurreição de Cristo a partir da sua vida e missão exige que olhemos para a nossa própria história e percebamos os sinais de ressurreição mesmo em meio às nossas cruzes e mortes. É encontrar Deus atuando na história, Cristo vencendo toda maldade e o Espírito cuidando da vida e resistindo aos poderes que destroem e matam a vida. Proclamar a fé na ressurreição de Cristo significa, ao mesmo tempo, acreditar na nossa ressurreição futura, graças ao poder de Deus. Mas, também, nos colocarmos ao lado da vida, pois "a glória de Deus é o homem vivo" (Santo Irineu).

A fé na ressurreição faz de nós profetas da esperança, "testemunhas do Ressuscitado" (Lc 24,48), pessoas marcadas pela alegria do encontro com o Cristo vivo e presente em nossa história. Ser testemunha é comunicar a própria experiência que vivemos; "isso que vimos e ouvimos, nós vos anunciamos" (1 Jo 1, 3). Que sejamos testemunhas alegres do Ressuscitado, defensores e cuidadores da vida; cientes de que não estamos sozinhos, pois "o Cristo, que leva aos céus, caminha à frente dos seus!"

*Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Atualmente é pároco da Paróquia de Santa Luzia ?" Arquidiocese de Teresina-Piauí.

Domtotal

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