segunda-feira, 19 de abril de 2021

APELO POR UM COMPROMISSO DE SUPERAÇÃO DA FOME

MST da região Noroeste do Paraná realiza doação de 5 toneladas de alimentos para 250 famílias em situação de vulnerabilidade em Maringá no dia 15 de abril (Breno Thomé Ortega)
Viver dignamente é um direito humano que não pode depender da caridade de alguns
Felipe Magalhães Francisco*
A fome voltou a mostrar sua força cruel em nosso país. A soma das consequências da pandemia com uma política econômica que privilegia banqueiros e rentistas, em detrimento da imensa maioria da população, trouxe-nos a este cenário. O Estado mínimo, tão sonhado pelos ultraliberais, é uma realidade apenas na vida dos empobrecidos e empobrecidas: banqueiros nunca sentem, negativamente, o impacto das crises econômicas e das decisões dos governos. Qualquer pessoa que tenha ido a algum supermercado recentemente pôde sentir o quanto o dinheiro cada vez vale menos: colocar comida na mesa tem sido um desafio para nós e, para 19 milhões de brasileiros e brasileiras, um milagre cada vez mais impossível e irrealizável.
A fome é absoluta. Qualquer pessoa que tenha a ousadia de relativizá-la é imoral. O Estado brasileiro tem faltado aos cidadãos e cidadãs em momento tão crítico de nossa história. Milhões e milhões de brasileiros e brasileiras têm sobrevivido unicamente graças à solidariedade de seus concidadãos. Essa solidariedade, no entanto, não tem sido suficiente: são 19 milhões de pessoas cercadas pela fome. Este não é um número. É uma quantidade de pessoas impossível de sequer imaginar. Mas são pessoas reais, que estão próximas de nós: talvez não no mesmo quarteirão ou condomínio, mas, certamente, muito próximas.
A solidariedade, repito, tem sido fundamental para um sem número de pessoas. Mas a solidariedade é paliativa e restrita. Urge que o Estado ofereça políticas públicas eficazes no combate à fome, também como condição sem a qual não será possível a superação dos estragos provocados pela pandemia. Não basta dar de comer aos empobrecidos e empobrecidas: é necessário questionar as estruturas que fazem com que sejam empobrecidos e empobrecidas, vitimados pela miséria e pela fome. Nossa solidariedade, agora, é mais que emergencial, e não deve vir sozinha. Precisamos, os que temos alguma condição cidadã, pressionar os muitos agentes públicos, sejam do Executivo sejam do Legislativo, em todos os níveis da federação, a promoverem as políticas públicas necessárias. Viver dignamente é um direito humano, que, para ser cumprido, não pode depender da caridade e da boa-vontade solidária de alguns.
Se, pois, cristãos e cristãs se orgulham de formar a população mais cristã do mundo – pelo menos em critério de confessionalidade – é imperativo que a situação de fome e miséria seja questionada. Mas, ressalte-se: devemos questionar não a vivência de fome e miserabilidade a que milhões de brasileiros e brasileiras são submetidos, pois trata-se de realidade concreta e inquestionável, e sim as causas que levam essas pessoas a essa infeliz e indignificante vivência. A ordem de Jesus, "dai-lhes vós mesmos de comer" (Marcos 6,37) é uma exigência de fé, que precisa interpelar cada cristão e cristã. Essa é uma exigência que não pressupõe apenas a boa-vontade caritativa em servir aqueles e aquelas que sofrem, mas também de romper com a realidade que as fazem sofrer. O amor, verdadeiramente cristão, promove transformações reais, em prol da justiça e da paz!
Exercer a cidadania, comprometendo-nos com a transformação da realidade, é um testemunho cristão ao qual os seguidores e seguidoras de Jesus não devem se furtar. Aqui, faço um apelo fraterno, a que façamos um simples gesto, com incidência efetiva em nossa realidade: tiremos um breve momento de nosso tempo, e busquemos pressionar políticos e políticas diretamente, a fim de manifestar-lhes nosso desejo de que atuem verdadeiramente em prol de nossos irmãos e irmãs que estão humilhados e sentenciados pela fome. Façamos contatos por meio de assessoria, de redes sociais, canais oficiais de comunicação. Mostremos a eles que estamos comprometidos com essa causa. Além disso, compartilhemos este propósito com pelo menos mais três pessoas: façamos uma corrente, verdadeiramente do bem. Essa é uma mobilização urgente, possível a cada um e a cada uma de nós. Façamos deste exercício uma contribuição cristã, àquilo que continuamente rezamos: "o pão nosso de cada dia   dai-nos hoje".
Em tempo: em Belo Horizonte, um manifesto online para pressionar vereadores e vereadoras, bem como o prefeito da capital mineira a promoverem uma renda básica às pessoas em situações de vulnerabilidade pode ser assinado pelo link: http://chng.it/2f4Mkpdnmj. Sem dúvidas, esta é uma iniciativa, entre muitas, que também pode e deve se espalhar por outros municípios do país.
*Felipe Magalhães Francisco é teólogo e professor. Coordena os especiais de religião deste portal. É co-autor do livro Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras (Saber Criativo, 2020). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

 Fonte; domtotal.com


 

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