sexta-feira, 16 de abril de 2021

HOJE NOSSA EMAÚS É O MUNDO





"A própria realidade da vida desmantela sonhos e esperanças. Parece que todos caminhamos para a nossa Emaús."

"O retorno deles é o oposto da chegada. Eles retornam ao grupo para retomar sua missão e seu testemunho da ressurreição."

«Hoje, na América Latina, as comunidades populares cristãs procuram devolver à nossa Eucaristia este caráter de alimento fraterno e um sinal de que queremos viver uma economia de partilha e de amor».


04.04.2021 | Marcelo Barros.

Neste domingo de Páscoa, que começa os 50 dias da festa da Páscoa, nas celebrações da manhã João 20,1-9 é lido como evangelho. No entanto, o Diretório da CNBB prescreve que nas celebrações noturnas Lucas 24,13-35 sejam tomadas como evangelho. Como já propus a meditação sobre o Evangelho da Vigília Pascal (Mc 16,1-8), agora proponho a leitura do texto de Emaús. Esta passagem do Evangelho nos acompanhou em muitos momentos importantes do caminho das Igrejas na América Latina.

A história dos dois discípulos que, no mesmo Domingo da Ressurreição, viajam de Jerusalém à aldeia de Emaús, resume as diferentes etapas do caminho de fé:

1 ° - Faça uma viagem.
2º - Andem juntos.
3º - Aquecer o coração na escuta da palavra de Deus.
4º - Inserir-se com os pobres, companheiros de caminho e daí reconhecer Jesus Ressuscitado, presente no companheiro e na partilha.
Alguns se perguntam, com razão, se os dois discípulos de Emaús eram um casal. Afinal, pelo que conta a história, parecia que moravam na mesma casa, pois levaram Jesus para jantar em sua casa. No quarto Evangelho, aos pés da cruz de Jesus, estava sua mãe, uma das irmãs de sua mãe, Maria, esposa de Cleofas e de Maria Madalena (cf. Jo 19,25). Segundo uma tradição muito antiga, Maria, a esposa de Cléophas, teria feito parte do grupo mais íntimo de discípulos que se arriscava a acompanhar de perto todo o processo e a crucificação. Seria difícil haver outro Cleofas no grupo de discípulos em Jerusalém e arredores (Emaús, 12 km). E se este Cleofas voltasse de Jerusalém para Emaús, onde morava, só poderia viajar com Maria, sua companheira

Na primeira parte do texto, Emaús parece significar o retorno à vida de antes. Estes dois discípulos de Emaús são a imagem de pessoas que já não se atrevem a sonhar, a ter esperança, a viver a sua fé. Muitas vezes nos encontramos nessa situação. Quantas pessoas nós conhecemos que estiveram no caminho do CEBS, dos movimentos sociais ou mesmo do ativismo político, e de repente abandonam tudo, cansados ​​e decepcionados. Muitos pensam que já deram o que poderiam dar.

A decepção foi com o projeto de Jesus e foi com a comunidade que praticamente acabou (a prisão de Jesus dispersou todos os que fugiam de medo, mas também decepcionados porque a cruz de Jesus frustrou todas as suas expectativas). No Brasil, há muitas pessoas que pensam assim sobre a esquerda e as propostas de um possível novo mundo.

Na narrativa do antigo êxodo dos hebreus para a terra prometida, no deserto, ou seja, na quarentena de distância social que vivia, a maior tentação era a saudade das cebolas do Egito. Entre nós, esse anseio assume outras formas. Pessoas que na juventude eram de esquerda traíram sua história de vida por um cargo ou segurança financeira. Os jovens revolucionários, à medida que envelhecem, tornam-se reacionários. Os casais descobrem que não estavam prontos para um compromisso sério e perdem noites solteiras.

A própria realidade da vida desmantela sonhos e esperanças. Parece que estamos todos caminhando para nossa Emaús. Como os peregrinos naquele primeiro Domingo de Páscoa, a nossa Emaús representa também, a princípio, renúncia e fragmentação. Só na Emaús a experiência foi vivida a dois. No nosso caso, muitas vezes a amargura da decepção nos isola e não queremos compartilhá-la com ninguém.

A boa notícia do evangelho de hoje é que, em todo caso, graças a Deus, não estamos sós nem abandonados. Nesta viagem aparece o próprio Cristo ressuscitado, embora não seja reconhecido. Nossos olhos não conseguem ver, não entendemos o que significa e nossos corações estão muito amarrados para acreditar. E ele parte da realidade e nos pergunta: - O que está acontecendo?

É importante que possamos sempre contar o que estamos vivenciando, o que está acontecendo. É essencial expressar nossa desesperança, insegurança e medos. E só começamos a entendê-lo quando ele faz conosco o que fez com os primeiros discípulos. Ele fala conosco e explica as Escrituras aplicando-as à sua Páscoa. Só então começamos a entender, como aconteceu com Cleofas e seu companheiro.

No caso dos dois de Emaús, aquece-os internamente com esperança e amor. Eles dizem um ao outro:

- Nosso coração ardeu dentro de nós quando ele falou conosco ao longo do caminho e nos explicou as escrituras.

Só por isso, eles insistiram:

- "Fica com a gente, porque escurece."

Por sentirem em seu companheiro de viagem uma Palavra queimando dentro deles, não queriam largá-la, embora não a reconhecessem. Hoje convivo com dois tipos de pessoas: para alguns, a Palavra toca e queima. Outros gostam e acham interessante, mas não permitem que a Palavra penetre nas profundezas de seu ser. Em todo o caso, para nós a expressão tornou-se um refrão pascal que repetimos continuamente: agora, nesta longa noite da pandemia: Senhor, fica connosco porque está a escurecer.
Na segunda parte da história, eles se encontram para jantar, no qual partem o pão. Embora não fale do vinho (apenas do pão), o texto evangélico de Emaús alude ao fato de Jesus ter pronunciado a bênção do pão. A comunidade manteve estes dois sinais (o da Palavra e o do partir do pão) como sacramentos e instrumentos da presença de Jesus entre nós e como marca fundamental das nossas comunidades.

A partir de então, há uma mudança nos discípulos e no curso de suas vidas. Mesmo à noite, eles voltam correndo para Jerusalém. As nossas celebrações da ceia de Jesus hoje podem tocar alguém desta forma?

Seu retorno é o oposto da chegada. Eles voltam ao grupo para retomar sua missão e seu testemunho da ressurreição. Geograficamente, eles voltam à Jerusalém de antes, mas voltam diferentes do que eram antes da Páscoa e do que eram no caminho para Emaús. Agora é um retorno no sentido mais profundo da conversão pascal. Quando lá chegam, já encontram o testemunho dos onze: “O Senhor verdadeiramente ressuscitou”. E eles podem contar como o reconheceram quando ele partiu o pão.
Hoje, na América Latina, as comunidades populares cristãs procuram devolver à nossa Eucaristia este caráter de alimento fraterno e sinal de que queremos viver uma economia de partilha e de amor.

Se ressuscitamos com Cristo, recebamos dele o espírito de ressurreição como uma transgressão do atual status quo do mundo e de nossa Igreja. Voltemos a Emaús para que, junto com as comunidades e os povos que persistem na luta pela transformação do mundo, possamos testemunhar a ressurreição. Como disse a guatemalteca Julia Esquivel em um poema há quase 40 anos: "Estamos todos ameaçados pela ressurreição".  

https://www.religiondigital.org/marcelo_barros/Hoy-Emaus-mundo_7_2329037089.html

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