sexta-feira, 23 de abril de 2021

SÃO JORGE, O GUERREIRO: INSPIRAÇÃO PARA AS BATALHAS DE NOSSOS DIAS

Apesar da existência histórica questionada, santo continua popular e atraindo grande devoção
Estátua de São Jorge na Praça Manezhnaya, na Rússia, na região dos Jardins de Alexandre, em Moscou (Pixabay)

Felipe Magalhães Francisco*

Noites de lua cheia são noites de encantamento: só uma pessoa muito insensível não se apraz com a beleza do astro. Na minha infância, em muitas das noites de lua cheia, ouvi de minha mãe que lá era onde morava São Jorge, que prendia o dragão, a fim de nos proteger. Recordo-me de pensar em quão privilegiado era o santo, por habitar na lua. Ao mesmo tempo, imaginava como devia ser complicado ficar vigiando o dragão. Em outras narrativas, diminuindo o tom das fantasias lendárias, conta-se que ele tenha matado o dragão. Importa-nos, ressaltando essas memórias, chamar a atenção para o arcabouço mítico que envolve as devoções aos santos e santas, e do qual Jorge da Capadócia é um dos maiores.

Uma grande discussão religiosa é sobre a existência histórica ou não de Jorge. De fato, pouquíssimos são os dados biográficos e históricos a respeito do santo. O que temos, e que é inegável, é a força da devoção em muitos lugares do mundo, em relação a Jorge da Capadócia, cultuado como santo guerreiro e mártir. Há países inteiros dedicados ao patrocínio religioso de São Jorge, bem como cidades, tal como é o caso do Rio de Janeiro. É um santo que permeia a devoção popular e que torna bastante possível a convivência inter-religiosa, uma vez que católicos celebram características de São Jorge, que candomblecistas e umbandistas celebram em Ogum, aproximando as festas.

No Dom Especial da semana, dedicamos os três artigos a refletir elementos importantes e diversos, que circundam a devoção a São Jorge. No primeiro, São Jorge: testemunha de fé e esperança, Francisco Thallys Rodrigues propõe um olhar pastoral sobre a devoção a São Jorge, ajudando-nos a refletir sobre o significado dessa devoção. Gustavo Ribeiro, no artigo Uma oração que alcança a lua, faz uma leitura teológica, lida de modo inter-religioso, da tão popular oração a São Jorge. Por fim, Guaraci dos Santos e Glaydson Souza refletem, no artigo São Jorge é Ogum?Uma abordagem sobre o sincretismo religioso, as inter-relações entre São Jorge e Ogum, nas devoções de católicos e de fiéis de religiões de matriz africana, para além da simples interpolação entre as duas personagens religiosas.

A vida de nossa gente é vida de luta. Confiar na intercessão de São Jorge, cristão fiel que perdeu sua vida em defesa da fé em Jesus Cristo, é ter um aliado nas lutas diárias que, cotidianamente, ameaçam a vida das pessoas que vivem sob tanta injustiça. Celebrar São Jorge é celebrar a força de quem sobrevive, aguerridamente, na luta contra os males que nos ameaçam de tantas formas. Viva, pois, Jorge da Capadócia! Ogunhê meu Pai!

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo e professor. Coordena os especiais de religião deste portal. É co-autor do livro Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras (Saber Criativo, 2020). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com 

Domtotal

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