sexta-feira, 23 de julho de 2021

A AMIZADE COMO EXPERIÊNCIA DE SALVAÇÃO

Amizades são, verdadeiramente, salvações vividas no emaranhado da vida
Amigos e amigas são o abraço de Deus em nós: o consolo de que não estamos sós e de que a vida é boa, quando compartilhada com verdade e profundidade (Unsplash/Jackson David)

Felipe Magalhães Francisco*

Na Bíblia, o tema da amizade aparece com mais força e frequência, no bloco dos livros sapienciais. Não é por acaso, pois. A sabedoria, que é arte do bem-viver, pressupõe a amizade. A pergunta que podemos nos fazer é se há possibilidade de bem-viver sem experiências de amizade na vida. Sábias são, também, as pessoas que sabem viver com profundidade e verdade suas relações de amizade. Há amigos mais chegados que irmãos, diz-nos o Livros dos Provérbios. Os laços de sangue não são pressupostos de relações humanizantes; os laços de amizade, sim.

Há múltiplos acordos possíveis, nas relações que estabelecemos com nossos amigos e amigas. Cada relação pede uma personalização e entrega próprias, mesmo quando há um grupo de amigos e amigas em comum. Traçar caminhos de solidificação de nossas relações com amigos e amigas é cuidar do modo como vivemos nossos afetos e sobre como desejamos viver nossa vida. E isso não é possível fazer de modo generalista.

E, em tudo isso, é preciso não cair nas romantizações acerca das amizades. Elas são relações humanas complexas e diversas, marcadas por trocas existenciais intensas e nada simples. Cada relação de amizade é singular e nos alcança e transforma de maneira única. Não há, pois, comparação justa e honesta que se possa fazer, ao observarmos cada relação-pacto de amizade. De igual forma, há uma interpelação para que não igualemos por baixo relações de coleguismo e camaradagem, com as relações de amizade: é preciso não banalizar o que compreendemos por amizade.

A amizade é uma das formas do amor que permanecem. E essa permanência não é sem dificuldades, muito pelo contrário, até. É como dizem em Minas: a gente sabe que é amigo depois de comer um quilo de sal juntos. O desnudar-se diante do outro nunca é fácil e a incerteza da aceitação e do acolhimento por parte desse outro, angustiante, mas é justamente o que propicia o estreitamento de laços e a manutenção do vínculo. Sem amigos, a vida incorre em solidão e mais desamparo. Amigos e amigas são o abraço de Deus em nós: o consolo de que não estamos sós e de que a vida é boa, quando compartilhada com verdade e profundidade. Amizades são, verdadeiramente, salvações vividas no emaranhado da vida.

No Dom Especial da semana, os três textos refletem sobre o valor da amizade, a partir de uma tônica antropológica e teológica. Daniel Couto, no artigo Amigo estou aqui!, reflete sobre a dimensão humanizadora das relações de amizade. Teófilo da Silva articula relação e revelação, a partir do exemplo de Jesus, no artigo Amizade: relação humana, revelação de Deus. Por fim, Fabrício Veliq reflete sobre o que a Teologia pode aprender, a partir de hermenêuticas de relações de amizade, no artigo A amizade como lugar teológico.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo e professor. Coordena os especiais de religião deste portal. É co-autor do livro Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras (Saber Criativo, 2020). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

Domtotal

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