sexta-feira, 30 de julho de 2021

MARTA, SERVIDORA ZELOSA

Marta nos mostra que o serviço deve ser feito com amor em todas as situações (Free Bible Image/Lumo Project)

Marta vai ao encontro de Jesus para se dispor ao serviço generoso por amor
Antônio Ronaldo Vieira Nogueira*
A tradição do Evangelho de Lucas aliada com a tradição do Evangelho de João nos fez conhecer três irmãos (Marta, Maria e Lázaro), cuja casa em Betânia, há três quilômetros de Jerusalém (cf. Jo 10,18), era lugar em que Jesus parava para descansar e encontrar o aconchego do amor de seus amigos-discípulos (cf. Lc 10,38-42; Jo 11,5). Esses três irmãos, na unidade profunda de sua fraternidade, no seguimento de Jesus, nos ajudam a compreender algumas dimensões fundamentais do discipulado cristão. Nessa pequena meditação vamos nos concentrar em alguns elementos do discipulado que emergem da figura de Marta, tomando como referência a perícope Lc 10,38-42.
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Essa passagem bíblica nos apresenta a narrativa da hospedagem de Jesus na casa das irmãs Marta e Maria (Lázaro não é mencionado). Marta aparece ocupada com os afazeres domésticos e Maria é apresentada sentada aos pés de Jesus para escutá-lo. Diante da solicitação que Marta faz ao Senhor para que mande Maria ajudá-la, a resposta de Jesus afirma que Maria escolheu a melhor parte que não lhe será tirada.
Desde os Padres da Igreja se costuma apresentar as duas figuras em contraposição de ação (Marta) e contemplação (Maria), rendendo preconceitos àquela e exaltação unilateral desta. Mas não é essa a intenção do texto bíblico. Como dissemos, os três irmãos expressam dimensões diferentes e complementares do discipulado cristão e temos sempre algo a aprender de cada um deles. Fiquemos um pouco com Marta, aprendendo dela alguns traços do discipulado.
Em primeiro lugar, devemos ressaltar a quebra de paradigmas realizada por Marta ao receber Jesus em sua casa quando Ele passava pelo vilarejo a caminho de Jerusalém (Lc 10,38). Naquele tempo, tal atitude era extremamente revolucionária. Uma mulher não tinha a autonomia de receber um homem em casa. Deveria permanecer na cozinha e preparar os alimentos, enquanto era o homem da casa quem dava atenção ao hóspede; ela sequer poderia cumprimentar o hóspede. Portanto, ao receber Jesus em sua casa, acolhendo-o com amor, Marta rompe barreiras e paradigmas. Na comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus todos têm o mesmo valor e dignidade. Também Jesus rompe com as mesmas barreiras ao aceitar a acolhida de uma mulher e fazer das mulheres participantes do seu grupo de discípulos (cf. Lc 8,1-3). Por onde passa, Jesus quebra barreiras, rompe condicionamentos e promove libertação. E Marta aprendeu isso bem cedo com seu Mestre e Senhor.
Uma segunda característica importante de Marta é seu desvelo para servir. Algo fundamental do discipulado cristão é o serviço. O próprio Jesus o indicou: "estou no meio de vós como aquele que serve" (Lc 22,24). Marta nos mostra que o serviço deve ser feito com amor em todas as situações. Isso é importante, pois verificamos muitas vezes que a palavra serviço tornou-se um slogan para resumir o ser cristão, mas com pouca incidência concreta. Marta nos ensina que o serviço passa pelos gestos mais simples e cotidianos. Ela acolhe bem o hóspede, algo da máxima importância na mentalidade bíblica; ela se põe a trabalhar para servir bem à mesa, realizando uma verdadeira diaconia, algo que caracterizará os primeiros cristãos (cf. At 6,1-7) e a Igreja em todos os tempos e lugares. E tudo isso faz com o zelo e o amor que tinha por seu Mestre e Senhor. Como Maria de Nazaré que vai ao encontro de Isabel para servi-la (cf. Lc 1,39-45), Marta vai ao encontro de Jesus para se dispor ao serviço generoso por amor. Essa deve ser igualmente a atitude de todo cristão.
Não se pode, contudo, negligenciar um risco nas atitudes de Marta e de todo cristão: o ativismo desenfreado é empecilho para acolher com generosidade a Palavra de Deus. Escutar a Palavra é condição fundamental para que o serviço não se torne uma agitação estéril no vazio em busca de autogratificação.
E, por isso, Jesus chama Marta para aprofundar o seu discipulado. Ele não a repreende, como muitas vezes se interpreta na leitura do texto, mas está realizando um chamado vocacional. Na mentalidade bíblica, a dupla invocação do nome de uma pessoa por Deus ou seu mensageiro é sinal de chamado para realizar uma vocação (cf. Ex 3,4; 1Sm 3,10; At 9,4b). É o que faz Jesus (cf. Lc 10,41): chama Marta à condição discipular pela escuta, meditação e prática da Palavra (cf. Lc 8,15). Essa é a parte boa, a única que realmente importa: "chegar a atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação" (Evangelii Nuntiandi, n. 19).
Assim, pela escuta e prática da Palavra do Evangelho, Marta, Maria, Lázaro, os apóstolos e os cristãos de todos os tempos somos chamados a vencer os preconceitos e barreiras que vão se impondo e que classificam e dividem as pessoas. Na comunidade dos seguidores de Jesus não há espaço para qualquer situação de diminua a dignidade de um ser humano em relação a outro. Em Cristo, todos devemos nos reconhecer como irmãos, como iguais em dignidade e diversos em dons e qualidades. Essa diversidade é enriquecedora para a comunidade e o mundo.
Ser discípulo de Jesus, portanto, nos tira de toda e qualquer situação de aprisionamento e opressão. Marta deu passos nessa direção quando rompeu barreiras culturais para acolher Jesus em sua casa. Foi convidada a mais um passo: sentar-se aos pés do Mestre para escutá-lo. Aí se encontra a liberdade plena de quem busca descobrir seu papel dentro do projeto de Deus e o faz nos passos de Jesus, aquele que está sempre atento à vontade do Pai para construir uma sociedade e uma história novas. Pela Palavra de Jesus, o Evangelho do Reino, as relações são transformadas, as barreiras são rompidas e o novo aparece. Marta aprende, nos passos de Jesus, e nos ensina que mulher pode ser o que quiser ser e estar em todo lugar que queira. Assim, se pode transformar o mundo e a história em novo espaço e momento de liberdade para todos a fim de que a paz vença o conflito, a vingança dê lugar à reconciliação e o ódio seja vencido pela força do amor.
*Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) " Belo Horizonte/MG. Professor e Coordenador do Curso de Teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) ?" Fortaleza/CE. Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte/CE

Fonte:domtotal.com

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