quarta-feira, 4 de agosto de 2021

A FÉ SECTÁRIA: QUANDO CRER É UMA FORMA DE ODIAR

Cena do filme 'A caminho da fé' (Netflix)

Fé ultra-severa anuncia um deus implacável e monstruoso

Luís Corrêa Lima*

Eis uma obra instigante sobre diferentes formas de crer, para refletir o quanto é possível amar ou odiar através da crença. É o filme A caminho da fé (Come Sunday), baseado na história do bispo pentecostal e negro norte-americano Carlton Pearson. Ele era um homem apaixonado por sua religião e dotado de uma oratória cativante. Semanalmente lotava o templo de sua congregação com milhares de pessoas, brancas e negras, e emissoras de televisão transmitiam seus cultos para todo o país. Era um sucesso notável.

https://youtu.be/np3osf8p5ow

No entanto, um fato o levou a uma crise de fé: o suicídio de seu tio na prisão, que por este motivo supostamente iria para o inferno. Na mesma época, em 1994, ocorre o genocídio em Ruanda. Em um conflito étnico, 800 mil tutsis são assassinados pela maioria hutu. Pearson não acredita que as vítimas desta violência estejam condenadas ao inferno por não serem cristãs. Ele procura respostas na Bíblia e ouve uma voz interior lhe assegurando a salvação de todos, independentemente de religião ou crença. Pearson considera esta voz como divina e traz tal novidade para sua pregação. Isto causa revolta entre os fiéis, levando a maioria a abandoná-lo e a buscar outras igrejas com doutrina conservadora. Ele é considerado herege e pressionado por outros bispos a voltar atrás, mas mantem sua convicção e arca com duras consequências.

Há um diálogo impressionante entre Pearson e seu mentor espiritual, o renomado televangelista Oral Roberts. Ao questionar Pearson por seu desvio, Roberts conta a história de seu próprio filho, que era gay e se suicidou. Roberts está convencido de que seu filho está no inferno. Chegou a questionar Deus por isto, mas depois se conformou e sente que sua fé está ainda mais fortalecida.

Trata-se de uma fé sectária, que anuncia um deus implacável e monstruoso, capaz de condenar sem piedade alguma suicidas, homossexuais e não cristãos à eternidade de tormentos. Não se considera de modo algum por que estas pessoas são assim e por que agem desta forma. Isto não tem a menor importância. Pearson se deu conta do sectarismo cruel em que estava mergulhado e conseguiu se libertar.

Esta crença sectária e ultra-severa fez parte da doutrina católica em séculos passados. Sodomitas, usurários e blasfemadores habitam o mesmo setor no inferno de Dante. Hereges, pagãos, judeus e cismáticos estavam destinados ao fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos. Os suicidas nem mesmo podiam ser enterrados no cemitério, considerado "campo santo". Felizmente a doutrina evoluiu. A Igreja Católica já canonizou muitos santos, mas hoje não afirma categoricamente que alguém esteja no inferno. Este existe como possibilidade inerente a liberdade humana, capaz de rejeitar a Deus definitivamente. Mas não significa que esta possibilidade tenha se concretizado para alguém. Só Deus pode saber e Ele é amor. Há teólogos com o argumento de que o inferno existe, mas está vazio. O auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, vai nesta linha.

Pearson chegou por seu caminho a uma conclusão parecida. Enfrentou a ira e a indignação dos que necessitam de um deus castigador implacável, ainda que injusto e cruel, para se sentirem seguros. Ele combateu o bom combate e deu um belo exemplo.

*Luís Corrêa Lima é sacerdote jesuíta, professor da PUC-Rio e autor do livro Teologia e os LGBT+: perspectiva histórica e desafios contemporâneos (Ed. Vozes)


O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião. 

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