sexta-feira, 6 de agosto de 2021

A HUMANIDADE DOS PADRES: UMA REDESCOBERTA URGRNTE PARA NOSSOS TEMPOS

Clero da Região Episcopal Nossa Senhora do Rosário da Arquidiocese de Belo Horizonte em manhã de espiritualidade com dom Vicente, bispo auxiliar, em junho de 2021 (Arquidiocese de BH)

Humanizar as figuras dos presbíteros é importante para a saúde eclesial e pessoal dos ministros ordenados


Felipe Magalhães Francisco*

Padres são personagens sociais interessantes. Houve um tempo, nos rincões do Brasil, em que eles tinham mais voz de mando que os delegados das cidades. Eles se envolviam nas questões sociais da comunidade/cidade e, até mesmo, nas coisas íntimas das famílias. Os tempos mudaram. Veio o processo de secularização e, tanto as instituições quanto as autoridades que as representam, perderam em grande parte o poder que exerciam sobre as consciências. O padre Zezinho constata um pouco desta mudança, quando canta que "a televisão, o rádio e o jornal convencem mais cabeças que o padre lá no altar".

Ainda que os tempos tenham mudado, a figura do padre ainda continua envolta em uma aura diferente de outras personagens sociais. Muitos deles reagiram às mudanças dos últimos tempos: alguns, ganhando notoriedade por serem reacionários e saudosistas apaixonados por uma estrutura eclesiástica e eclesial esclerosada; outros, pela presença nas emissoras de rádio e TV, em shows e mais; além do boom da presença de padres nas redes sociais, com uma linguagem atenta às redes. É claro que há, ainda, aqueles que estão deslocados; outros, que vão tentando ressignificar a vida e o ministério diante das novas exigências destes tempos?

Mas, ainda assim, parecem aliens, quando observamos o contexto social: são pessoas comuns ou não? Devem ser tratadas como tratamos as outras pessoas, no dia a dia? Devemos esperar mais de um padre, que das outras pessoas com as quais lidamos e convivemos? Há, sem dúvidas, ainda uma sacralização da figura do padre, e isso reflete coisas boas e não tão boas assim. Um dos riscos atuais, quando a vivência da religião vai se dando de forma cada vez mais subjetivista por parte dos fiéis, é o de que o padre passe a ser uma espécie de mago a fim de atender os gostos pessoais dos fiéis, numa espécie de contrato sagrado.

Há muitos problemas com os quais o catolicismo precisa lidar, que envolve o ministério ordenado, para nossa atualidade. O clericalismo é um veneno perigosíssimo, por exemplo, como tem alertado com constância o papa Francisco, na esteira de uma boa teologia. As tentações de poder são um risco frequente. O despreparo, fruto amargo de uma formação não adequada para a importância que o ministério tem, traz danos para a vida eclesial. Apesar de tudo isso, no entanto, há inúmeros exemplos de padres comprometidos com a missão que pela Igreja foram investidos, mas ainda há muito o que caminharmos, para ecoar, ainda mais, uma eclesialidade mais profundamente evangélica.

Padres são pessoas. O ministério ordenado não é um plus na sua pessoalidade, mas um compromisso de serviço. Humanizar as figuras dos presbíteros é importante para a saúde eclesial e também pessoal de cada homem dedicado ao Ministério da Ordem. Os textos do Dom Especial desta semana, trazem reflexões importantes nesta direção. No primeiro artigo, O ministério presbiteral em nosso tempo, Francisco Thallys Rodrigues reflete sobre as tarefas e desafios para os padres de nosso tempo. Raimundo Feitosa dos Santos, no artigo Reforma na formação dos candidatos ao ministério ordenado na Igreja do Brasil, aponta as transformações históricas no processo de formação dos candidatos ao presbitério, sinalizando a situação eclesial brasileira. Por fim, abordando uma questão absurdamente urgente, César Thiago Alves aponta para a necessidade de se investir no cuidado psíquico dos presbíteros, como questão pastoral inalienável, no artigo O cuidado psíquico dos presbíteros.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo e professor. Coordena os especiais de religião deste portal. É co-autor do livro Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras (Saber Criativo, 2020). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com 

Domtotal

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