terça-feira, 24 de agosto de 2021

O SILÊNCIO DOS 'BONS' E A EXIGÊNCIA DE UMA FÉ PROFÉTICA

Na parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37), Jesus denuncia a tentação de uma fé "neutra", que não se envolve com os caídos e feridos à beira do caminho (Free Bible Images/Lumo Project)
A fé cristã, encarnada na história, nos desafia a não permanecermos indiferentes e insensíveis diante do grito dos pobres e indefesos
Rodrigo Ferreira da Costa, SDN*
Atribui-se a Martin Luther King uma frase de grande valor ético e profético: "O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons". Essa preocupação de Luther King deveria também inquietar a nossa fé, porque quando os cristãos, assim como Pilatos (cf. Mt 27,24), lavam as mãos diante da injustiça e da morte do outro, acabam por se colocarem do lado dos que matam e oprimem a vida. Não se posicionar, silenciar-se diante da injustiça e da opressão, deixar morrer como se não fôssemos responsáveis pela vida do nosso irmão (cf. Gn 4,9), permanecendo com a consciência tranquila, esquecendo que "todos são responsáveis por todos, mas eu mais do que os outros", é tonar-se cúmplice da morte do outro.
Leia também:
O cristianismo e seu serviço à democracia
A voz do povo é a voz de quem?
A responsabilidade da pregação cristã para com o diálogo, em tempos de intolerância
Na parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37), Jesus denuncia a tentação de uma fé "neutra", que não se envolve com os caídos e feridos à beira do caminho. Parece que Jesus não está tão preocupado com os ladrões que roubaram e espancaram o homem que agora se encontra ferido e quase morto. Os olhos do Senhor se voltam para aqueles que passam pelo caminho, veem o homem machucado e se fazem insensíveis, talvez até pensando: "o problema não é meu, não tenho nada a ver com isso...". Entretanto, não tomando uma posição, o sacerdote e o levita colocam-se na linha dos bandidos: deixam morrer! E, pior ainda, em nome de Deus!
A fé cristã, encarnada na história, nos desafia a não permanecermos indiferentes e insensíveis diante do grito dos pobres e indefesos. As vozes das minorias que gritam no "deserto" de nossa sociedade hipócrita e corrompida, como a nossa, precisam ecoar em nossas Igrejas. Como nos recorda o Documento de Puebla (N. 28), "vemos, à luz da fé, como um escândalo e uma contradição com o ser cristão, a brecha crescente entre ricos e pobres. O luxo de alguns poucos se converte em insulto contra a miséria das grandes massas. Isto é contrário ao plano do Criador e à honra que lhe é devida. Nesta angústia e dor, a Igreja discerne uma situação de pecado social, cuja gravidade é maior quando se dá em países que se dizem católicos e que têm a capacidade de mudar." Em nome da fé, precisamos nos sentir desafiados a não calarmos a nossa voz diante das injustiças, porque o grito dos oprimidos tocam o coração de Deus.
O silêncio dos "bons" nunca será neutro. Quando a Igreja não se posiciona, quando os profetas se calam, quando os cristãos permanecem indiferentes, seja por medo das perseguições e ameaças, seja para não perderem os "privilégios", acabam por se colocarem do lado dos poderosos. "Lavar as mãos" diante do conflito e da morte do outro, não é apenas um modo de eximir das nossas responsabilidades, mas, muitas vezes, fazemos isso para não perdermos a "amizade de Cesar", ou seja, para não perdermos os privilégios pessoais e institucionais. Isso é pecado! Pois aprendemos desde cedo em nossa catequese que pecamos também por omissão.
Diante daqueles que queriam calar a voz dos seus discípulos, Jesus afirma: "Se eles se calarem, as pedras clamarão" (Lc 19, 40). Ainda hoje, há aqueles que querem extinguir a profecia, seja enclausurando a fé nas "sacristias" das igrejas ou mesmo expulsando, perseguindo e matando os profetas, destituindo, assim, a religião de sua cidadania na "cidade dos homens". Porém, como guardiões da justiça e do direito, os profetas jamais poderão se calar.
As ameaças contra os profetas nascem, muitas vezes, dentro da própria Igreja. Há sempre aqueles que se colocam como os defensores da "santa doutrina" e, se dão no direito de condenar, difamar e perseguir quem pensa diferente. Estes se dizem isentos da política e das ideologias, mas será que são realmente neutros? A quem interessa uma religião sem rosto, desencarnada, que não toca as "chagas de Cristo no outro"? Assim como na ciência, na educação, na justiça, na comunicação, etc. na Igreja também não existe "neutralidade". Sempre vamos nos posicionar. E quando não nos posicionamos, acabamos por nos colocar do lado dos detentores do poder, pois "quem se cala, consente".
Penso que a fé cristã, fiel ao seu mestre Fundador, precisa assumir com mais veemência a profecia. "Quando se lê o Evangelho, encontramos uma orientação muito clara: não tanto aos amigos e vizinhos ricos, mas sobretudo aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, 'àqueles que não têm com que te retribuir' (Lc 14,14). Não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem esta mensagem claríssima. Hoje e sempre, 'os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho', e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer. Há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais sozinhos!" (Papa Francisco. EG, n. 48).
Há que se lembrar, porém, que a profecia tem um preço, e, às vezes, bastante alto. Uma Igreja profética, que fica do lado dos injustiçados, que denuncia a violência e a morte, não agrada a todos. Pelo contrário, ser profeta é correr o risco da rejeição, da perseguição e até mesmo da morte. O próprio Jesus alertou aos seus discípulos acerca dos perigos da missão profética no mundo. Pois os verdadeiros profetas nem sempre são aceitos por aqueles que ferem e matam a vida. Mas Jesus chama de bem-aventurados os perseguidos por causa do Evangelho: "Felizes sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus. Pois foi deste modo que perseguiram os profetas que vieram antes de vós" (Mt 5, 11-12).
A fé cristã, em nome da fidelidade a Jesus Cristo, não pode jamais manter-se neutra, indiferente e longe das causas do seu povo. Deus nos livre de uma Igreja que celebra o Memorial do Mistério Pascal de Cristo, mantendo-se longe dos crucificados da história. Uma Igreja que tem medo de perder privilégios e, por isso, se cala diante do barulho dos opressores, não pode se dizer sacramento do Reino. Por isso, precisamos pedir sempre a Deus o espírito de amor e valentia que moveu os profetas e que nos animam hoje a tomarmos a posição da verdade e da liberdade, da justiça e da paz, mesmo correndo riscos de sermos mal compreendidos, rejeitados e perseguidos.
*Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN

 Fonte:domtotal.com


 

Nenhum comentário:

Postar um comentário