quinta-feira, 30 de setembro de 2021

CINCO REGRAS PARA DISCORDAR DO PAPA

Papa Francisco durante celebração eucarística na Basílica de São Pedro, na tarde do dia 23/09 (Vatican News)
Igreja precisa conversar sobre como lidamos com as divergências, sobretudo quando se trata de um pontificado
Thomas Reese*
NCR
Durante uma visita aos jesuítas na Eslováquia, o papa Francisco reclamou de "um grande canal de televisão católico que não hesita em falar continuamente mal do papa". Os jornalistas do Vaticano imediatamente identificaram a empresa de mídia americana como EWTN, fundada no Alabama em 1981 pela falecida Madre Angélica.
Um dos maiores críticos do papa é o diretor de notícias e âncora principal da EWTN, Raymond Arroyo, que patrocina um grupo de críticos do papa Francisco. O diretor frequentemente aparece no programa The ingraham angle no canal Fox News.
"Eu pessoalmente mereço ataques e insultos porque sou um pecador", disse o papa, "mas a Igreja não os merece. Eles são obra do diabo".
Francisco também reclamou de "clérigos que fazem comentários desagradáveis sobre mim". Admitiu: "Às vezes perco a paciência, especialmente quando eles fazem julgamentos sem entrar em um diálogo real".
Os ataques aos papas por parte dos clérigos e da mídia não são novos. Esses ataques vêm da esquerda ou da direita, dependendo de quem é o papa.
O papa João XXIII foi atacado por conservadores que o culparam por abrir a Igreja à mudança ao convocar o Concílio Vaticano II.
O papa Paulo VI foi atacado por todos os lados. Os conservadores se opuseram às suas tentativas de implementar as reformas do concílio, enquanto os liberais queriam que agisse mais rápido. Os liberais escalaram seus ataques depois que publicou a encíclica Humanae vitae, o escrito que proíbe o uso de anticoncepcionais não naturais.
Os papas João Paulo II e Bento XVI foram fortemente atacados pelos liberais, assim como Francisco está agora sob ataque dos conservadores.
É irônico que os próprios conservadores que condenaram os liberais por serem católicos de cafeteria – católicos que escolheram e apoiaram aquilo que aceitaram de João Paulo e de Bento XVI – agora estejam fazendo o mesmo com Francisco.
Da mesma forma, os católicos liberais que se sentiam livres para discordar de João Paulo II e de Bento XVI estão agora condenando os conservadores por não serem leais ao papa.
Sejamos honestos. Somos todos católicos de cafeteria. A verdadeira questão é como evitamos uma briga de refeitório.
Em seus Exercícios Espirituais, Santo Inácio de Loyola, o fundador dos Jesuítas, estabeleceu "Regras para pensar com a Igreja". Com esse mesmo espírito, aqui ofereço cinco regras para discordar do papa. Este rascunho não é perfeito, mas acho que a Igreja precisa conversar sobre como lidamos com as divergências.
Primeiro, seja respeitoso. Chamar Bento XVI de Rottweiler, "pastor alemão" ou inquisidor é cruzar os limites, assim como os insultos étnicos contra ele e João Paulo II. Da mesma forma, referir-se a Francisco como heterodoxo ou herege é inaceitável. O sarcasmo e o discurso de ódio não têm lugar na Igreja. Como nos sentiríamos se fôssemos o alvo dessa linguagem?
Em segundo lugar, se você discordar de um papa, certifique-se de enfatizar as coisas positivas que ele fez. Tive sérias divergências com João Paulo II e Bento XVI, mas sempre elogiei João Paulo II por seu papel na libertação da Polônia e da Europa Oriental, bem como por seus esforços para melhorar as relações entre católicos e judeus. Ambos os papas apoiaram e desenvolveram o ensino social da Igreja, e com Bento XVI a Igreja começou a se tornar ambientalmente consciente.
Terceiro, descreva a posição do papa de forma precisa e completa; não crie um espantalho que possa ser derrubado facilmente. Não diga apenas que o papa odeia mulheres e gays ou que deseja destruir a Igreja. Idealmente, você deveria ser capaz de explicar a posição do papa melhor do que ele.
Quarto, nunca fale ou escreva quando estiver emocionalmente perturbado. Respire fundo. Conte até 10 ou 100. Sente-se no projeto por 24 horas. Converse sobre isso com uma pessoa sábia antes de agir. Seja especialmente cuidadoso ao tweetar.
Quinto, pergunte a si mesmo: você falaria assim de seu pai ou de alguém que você ama? Se a resposta for não, não faça isso. A Igreja é uma família. Brigas de família são as piores. Nossos objetivos devem ser reconciliadores, não divisores.
Nossas discussões internas na Igreja devem seguir as mesmas regras do nosso diálogo ecumênico: as divergências devem levar a um conhecimento mais completo e a melhorias e, em última instância, ao consenso. Assim, como dizem as velhas músicas, "Eles saberão que somos cristãos por nosso amor", em vez de saber que somos católicos por nossas lutas.
Entretanto, desentendimentos fazem parte de qualquer família ou comunidade. Suprimi-los leva à frustração e a um comportamento disfuncional. Francisco não deve se surpreender com divergências. Afinal, o papa pediu por isso. No sínodo sobre a família de 2014, ele pediu aos bispos que "falassem com ousadia".
"Uma condição geral é esta", disse o papa. "Fale claramente. Não deixe ninguém dizer: Você não pode dizer isso." Ao mesmo tempo, o discurso deve ser respeitoso e voltado para a construção da comunidade, não para destruí-la. Deve ter como objetivo a reconciliação, não a divisão. Desentendimentos devem levar a conversas, não a gritos.
Falar com aqueles de quem discordamos não é sobre ganhar e perder. É uma questão de conversa e melhor compreensão.
Publicado originalmente por NCR
Tradução: Ramón Lara
*Thomas Reese, é um padre jesuíta, escritor e colunista para o Religion News Service, sua coluna 'Signs of the Times', aparece regularmente no National Catholic Reporter

 


 

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