terça-feira, 21 de setembro de 2021

SUPERAÇÃO DA POBREZA: UMA QUESTÃO ÉTICA IRRENUNCIÁVEL

Se a realidade da fome, que não é casual mas projeto, não nos choca, não faz que nos condoamos em misericórdia, precisamos perguntar a respeito de nossa humanidade
A pandemia agravou aquilo que vimos nascer como projeto: o desmonte das políticas públicas de superação da pobreza (Miguel Schincariol/AFP)

Felipe Magalhães Francisco*

A miséria voltou a assombrar a vida de milhões de brasileiros e brasileiras. Uma realidade que, tristemente, nunca deixou de ser marcante na vida de outras tantas milhões de pessoas em países abandonados, depois de longos séculos de exploração. No Brasil, a saída do Mapa da Fome foi motivo de celebração e reconhecimento internacional. A pandemia agravou aquilo que vimos nascer como projeto: o desmonte das políticas públicas de superação da pobreza. O preço é sempre pago pelos empobrecidos e empobrecidas.

Aos poucos, as pessoas tornam a ocupar as ruas e os espaços públicos, depois de longo tempo de restrições, por causa das tentativas de contenção da circulação do vírus que já dizimou mais de 600 mil brasileiros e brasileiras - a considerar os casos subnotificados.

Voltar às ruas tem sido um deparar-se constante com situações de empobrecimento: o número cada vez mais crescente de pessoas em situação de rua, o expressivo número de pessoas na mendicância, uma quantidade assustadora de crianças vendendo balas. A fome é absoluta; quem é capaz de relativizá-la já está morto por dentro. É cruel viver num país cujas elites gozam com tal realidade, e que celebram um ministro da economia, visto como verdadeiro salvador, mas que explicitamente odeia pobres e tem por eles nítido desprezo.

Há milhares de pessoas organizadas e se organizando para atuar na emergência de suprir a fome de outras tantas. Instituições, religiosas ou não, mobilizando a arrecadação de alimentos. Movimentos sociais, tal como o dos Trabalhadores Sem Terra, distribuindo toneladas mais toneladas de alimentos orgânicos, para saciar a fome de quem é desassistido por um Estado pautado pela política da morte. Essa é uma atuação fundamental e urgente: quando alguém tem fome, é preciso saciá-la.

Fala-se tanto em não dar o peixe, mas a ensinar a pescar, quando, na realidade, rouba-se o direito de que os empobrecidos e empobrecidas tenham sequer a vara ou a tarrafa, quiçá o peixe. Mais das vezes, os poderosos matam inclusive os rios - em nosso país, infelizmente, essa é uma verdade literal.

O Estado é mínimo para quem nunca teve nada. É preciso que não nos calemos diante disso. É preciso denunciar a política de morte que se apodera do nosso país. A urgência do tempo nos impele ao movimento de socorrer quem é agredido e violado pela fome. Mas é preciso mais: urge que atuemos para a transformação das consciências, para a politização de nossas relações, para a denúncia profética dos agentes de morte. Esse é um imperativo ético fundamental para pessoas religiosas, ou não; às religiosas, no entanto, tal imperativo é definidor da estatura e da verdade da fé.

Se a realidade da fome, que não é casual mas projeto, não nos choca, não faz que nos condoamos em misericórdia, precisamos perguntar a respeito de nossa humanidade. Aos cristãos e cristãs, sobretudo, que se orgulham de serem maioria confessional em nosso país, a interpelação precisa ser ainda mais bruta, porque diz respeito à própria vida de Jesus Cristo, que julgamos ainda ter alguma relação com o cristianismo, ainda.

Nosso Dom Especial da semana é uma interpelação ética, voltada sobretudo aos cristãos e cristãs: não é possível a relativização ou a espiritualização da fome. Movamo-nos, tal como o coração de Deus se move em nosso favor!

No primeiro artigo, Opção pelos pobres como caráter ético da fé, César Thiago Alves traz ao olhar o núcleo central do evangelho de Jesus que, ou é assumido pela sua Igreja, ou ela não tem razão de ser. Fabrício Veliq, no artigo Neopentecostalismo e pobreza, ressalta a incongruência entre uma religiosidade dita cristã, marcadamente forjada na lógica do mercado, e a ética nascida do Evangelho de Jesus Cristo. Por fim, Rodrigo Ferreira da Costa reflete, no artigo Os desafios de uma Igreja pobre e para os pobres, as urgências da conversão pastoral do cristianismo a fim de efetivar a missão evangélica em nossa história contemporânea, em fidelidade ao seguimento de Jesus e de seu Reino.

Boa interpelação!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo e professor. Coordena os especiais de religião deste portal. É co-autor do livro Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras (Saber Criativo, 2020). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

 Domtotal

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