terça-feira, 19 de outubro de 2021

UM CAMINHO DE COMUNHÃO: A SINODALIDADE COMO URGÊNCIA ECLESIAL

Sínodo, literalmente, significa caminhar juntos (Luke Porter / Unsplash)
Somos convidados a nos engajar nos processos de fortalecimento de uma cultura cristã de comunhão, visando a conversão sinodal da Igreja
Felipe Magalhães Francisco*
O povo de Deus só assim se compreende, porque é povo peregrino. É no trilhar juntos, por simbólicos 40 anos, ao longo do deserto, que a convivência com Deus - o Companheiro - e com os irmãos e irmãs pôde fazer surgir a consciência de sua identidade. O Pentateuco não se encerra com a narrativa da chegada à Terra Prometida, mas com uma promessa que está sempre em aberto. É interessante quando olhamos com atenção para a historiografia bíblica, e podemos perceber que é a partir do momento em que aquele povo deixa de ser tribal (nômade) para se assentar na Terra Prometida, que as dificuldades em relação à própria identidade começam a surgir. Um aprendizado surge daí: é preciso usufruir do cumprimento da promessa feita pelo Senhor, sem perder do horizonte que aquele povo é povo a caminho.
O cristianismo, enraizado na história do povo de Israel, compreende-se também na perspectiva de ser povo peregrino na história. No catolicismo, inclusive, fala-se da Igreja terrena como Igreja Peregrina. A peregrinação é na história: há quem pense que a dimensão da travessia é sem consequências para a história do mundo, uma vez que o destino é a pátria celeste. Não há, pois, acesso ao horizonte final sem que os passos estejam bem firmados no chão da vida. Esse peregrinar precisa ser vivido em comunhão: na fraternidade dos que se apoiam, sustentam-se uns aos outros, no fortalecimento mútuo que torna o caminho menos difícil e mais possível.
Há na caminhada do povo de Deus aqueles e aquelas que assumem o papel do pastoreio, tarefa importante no discernimento do ritmo, no tracejar das rotas, no apoio àqueles e àquelas que têm mais dificuldade no caminhar, na motivação para que os passos tenham ânimo… Mas esse não é, longe de dúvidas, um caminho sem dificuldades, sem muitos obstáculos. É preciso gentileza e generosidade para compreender que cada um e cada uma tem seu próprio tempo, seu próprio ritmo. É necessário coragem para continuar avançando, quando tudo parece ser força contrária, de estagnação.
A vivência prática, concreta do ser Igreja, também precisa ser lida nessa lógica do caminhar juntos. A Igreja não é uma democracia, pois é a Palavra de Deus que deve ser a condutora da missão eclesial no mundo, e não a escolha da maioria, mas pressupõe-se corresponsabilidade de todos os batizados e batizadas no processo de escuta, discernimento e adesão a essa Palavra. Para isso, é preciso redescobrir a força da comunhão, que só o Espírito do Ressuscitado pode garantir à Igreja, para que sua missão seja efetiva no mundo. Urge que os batizados e batizadas, sobretudo aqueles membros da hierarquia, ouçam o que esse Espírito diz à Igreja (cf. Ap 2,7).
Em sua natureza, a Igreja é sinodal (sínodo, literalmente, significa caminhar juntos), por mais que enrijecimentos ao longo da história aconteceram, é preciso sempre abrirmo-nos à atuação do Espírito, a fim de que não nos percamos dessa importante identidade, que nos constitui como povo de Deus. Diante dos apelos cada vez mais urgentes, em vista de uma conversão sinodal da Igreja, nosso Dom Especial da semana se dedica a refletir sobre o tema, como convite aos cristãos e cristãs que se engajem, corresponsavelmente, nos processos de fortalecimento de uma cultura cristã de comunhão.
No primeiro artigo, Sinodalidade: rosto de uma Igreja comunhão, Denilson Mariano reflete o mistério do ser da Igreja, à luz do tema da sinodalidade como expressão da comunhão. Antônio Ronaldo Nogueira, no artigo Sinodalidade para além do clero, aponta para a fundamental compreensão de que a corresponsabilidade eclesial diz respeito a todos os batizados e batizados. Por fim, Francisco Thallys Rodrigues, traz um exemplo concreto de como a Igreja pode construir um caminho sinodal, como expressão mesmo de seu ser, no artigo A sinodalidade da Igreja de Crateús.
Boa leitura!
*Felipe Magalhães Francisco é teólogo e professor. Coordena os especiais de religião deste portal. É co-autor do livro Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras (Saber Criativo, 2020). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

 Fonte:domtotal.com


 

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