sexta-feira, 5 de novembro de 2021

AS MENTIRAS SOBRE O SÍNODO

Francisco conduz um sínodo que coroa seu programa de reforma (AFP/Alberto Pizzoli)
Uma reflexão sobre o mundo fantástico dos opositores de Francisco


Mirticeli Medeiros*

Com certeza, você deve ter ouvido o boato de que o papa Francisco, com o sínodo da sinodalidade, quer acabar com a hierarquia. Ou que, daqui para frente, o próprio papado deixará de existir. Esses e outros absurdos são compartilhados, em looping, por grupos católicos que, como diz o próprio sumo pontífice, "acreditam estar salvando a Igreja dela mesma".

Começa, mais uma vez, uma campanha difamatória contra o sínodo. Como fizeram com o Sínodo da Amazônia, em 2019, mais cedo ou mais tarde inventarão uma "pachamama" como símbolo de uma nova cruzada.

A ideia é confundir as pessoas, convencendo-as de que, na verdade, tais interpretações apocalípticas não passam de "esclarecimentos", de um "alerta" para os fieis. E é sob a égide desse slogan que muitos influencers católicos conseguem propagar suas fake news. Por causa do espaço de fala que conquistaram, sobretudo nas arenas virtuais, sabem que até seus devaneios serão facilmente absorvidos quase como verdades de fé. Eles se sentem os guardiães do depositum fidei, por assim dizer.

Trava-se uma batalha não só contra o papa, mas contra um modelo de Igreja, proposto por um concílio. É ingênuo pensar que queiram atingir, simplesmente, o pontífice argentino. Como a intenção é transformar o catolicismo numa religião que se limite a atender aos interesses de certos grupos, Francisco se torna uma ameaça para eles. E nem preciso dizer o quanto tem sido rentável promover um falso resgate da "tradição", com T minúsculo.

Sendo assim, o sínodo que está curso coloca em risco esse projeto de poder. Com os lugares de fala ampliados, a pastoralidade passa a ser o fio condutor dessa reforma a qual, iniciada na cúria romana, agora se estende para o resto da instituição.

A nova Constituição de reforma da Cúria Romana, que será publicada no fim do ano, prevê, justamente, que a Congregação para a Evangelização dos Povos, dicastério vaticano responsável pela atividade missionária da Igreja, passe a ser considerado o mais importante, substituindo a Congregação para a Doutrina da Fé. O ex-Santo Ofício antes estava no topo desse organograma. Com a mudança, ocupará o segundo lugar.

Fica evidente que a ideia é tanto promover uma nova evangelização na Europa quanto motivar o ardor das realidades mais novas, como no caso da América Latina. Porém, é bom salientar que Francisco não quer "latinizar" o resto da Igreja, embora considere a grande contribuição que o novo continente pode oferecer ao resto da instituição.

A ideia é colocar o catolicismo numa nova dinâmica frente aos desafios do presente. Só que, para isso, todos os católicos precisam se mobilizar. Dessa forma, o sínodo é visto como um meio para se chegar à consolidação desse projeto. Como, a partir das mais distintas realidades, é possível pensar numa confissão cristã que dialoga com os vários setores da sociedade? Como fazer com que essa mensagem chegue aos areópagos da atualidade?

Quem ler o Documento de Aparecida (2007), a carta magna do atual pontificado, conseguirá intuir a que se propõe esse sínodo. Tudo parte do "ver, julgar e agir". E tal método só será eficaz se forem criados espaços concretos de escuta. Graças ao sínodo sobre a sinodalidade isso será possível.

Francisco é pragmático. E o seu "jesuitismo" o impulsiona a ser cada vez mais assim. Seguindo a pedagogia própria dos inacianos, ele sabe que o discernimento que se desvincula da realidade é estéril. Há uma preocupação latente de que o cristianismo não seja algo abstrato, mas algo encarnado na vida.

E é justamente isso que os ritualistas, apegados a um modelo monárquico de Igreja, não conseguem entender. Francisco não quer destruir o papado ou destituir o colégio de cardeais com esse sínodo. Mas quer mostrar, também para os seus colaboradores, que os títulos correspondem a um serviço, não a um privilégio. É ministério, não um cargo com plano de carreira dentro de uma organização. E a "conversão sinodal" só poderá acontecer quando as autoridades, por primeiro, estiverem dispostos a acompanhar, não simplesmente a delegar. E quando os leigos, nesse processo, também sejam reconhecido como parte integrante de um corpo, não como simples receptores da mensagem.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras


O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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