quarta-feira, 24 de novembro de 2021

UM DEUS QUE NÃO ACEITA SER IGNORADO PODE SER CHAMADO DE CRISTÃO?

Deus se deixa ser ignorado pelo ser humano
Cena do filme 'A peste', baseado no livro homônimo, no qual o padre Paneloux faz seu sermão (Reprodução)

Fabrício Veliq*

Albert Camus, ganhador do prêmio Nobel de 1957, continua sendo um dos maiores escritores de nosso tempo. Em uma de suas obras, intitulada A Peste, conta a história de uma cidade que foi atacada por uma peste e teve que conviver e lutar para salvar quantos podia, enquanto diversos morriam devido ao flagelo.

Dentre os vários personagens presentes na obra, Camus nos apresenta o padre Paneloux, jesuíta, bastante erudito e defensor de um exigente cristianismo. Sendo padre, durante a peste faz dois sermões para a comunidade. Nesse pequeno artigo, gostaria de falar sobre o primeiro sermão apresentado no romance. Nele, Paneloux fala de um Deus retribucionista, que traz o mal para a condenação dos pecadores e para arrependimento daqueles que haviam sido infiéis a Ele. A peste surge, então, segundo Paneloux, como esse castigo divino, a exemplo do castigo dado a Faraó no deserto quando o povo de Israel saía do Egito. Nesse sermão Paneloux fala da indiferença. Em sua voz: Sim, chegou a hora de refletir. Acreditastes que era bastante visitar Deus no domingo, esquecendo-se nos outros dias. Pensaste que algumas genuflexões compensariam a vossa criminosa indiferença. Mas Deus não é indiferente. Essas relações espaçadas não bastavam à sua insaciável ternura. Queria ver-nos muitas vezes: é a sua maneira de amar. E, na verdade, é a única maneira de amar. Eis por que, fatigado de esperar, mandou o flagelo a esta cidade, como a todos os lugares pecadores desde que o homem tem história (CAMUS, 1971, p. 125). Paneloux acusa o povo de indiferença em contraste com a perspectiva divina. Enquanto o povo era indiferente, Deus não se mostrava dessa forma.

O Deus apresentado por Paneloux nesse sermão é um deus que não aceita ser negado e ser ignorado. É um Deus que quer ser visto muitas vezes e, segundo o sermão de nosso padre, é se sentindo percebido que Deus reconhece o amor de seus fiéis. O não comparecimento, ou o comparecimento esparso por parte do povo à igreja revela a indiferença frente à vontade divina e o Deus desse sermão de Paneloux não pode se satisfazer com isso.

Interessante é para nós percebermos a relação que Paneloux estabelece entre o ser humano e Deus. Enquanto um é indiferente, o outro permanece sempre se importando e querendo a relação. O Deus de Paneloux é um deus que não pode ser dispensado pelo ser humano. Ele se torna um Deus necessário e sua necessidade se manifesta em condenar aquele e aquela que o esquece e o ignora.

Porém, o Deus que se manifesta no sermão de Paneloux seria o mesmo Deus revelado em Jesus Cristo? Talvez o ponto que se nos faz crucial é pensarmos que, no evento Jesus Cristo, a morte de Deus precisa ser também considerada, como nos mostra Moltmann, em sua obra O Deus Crucificado. A partir da história de Jesus Cristo, somos implicados a aceitar, como diz Joseph Moingt, que o Deus de Jesus aceita ser ignorado, rejeitado, negado, blasfemado e até morto, mostrando-nos que Deus se revela na fraqueza e na pequenez, permitindo ao ser humano a possibilidade de ignorá-lo e dando a este a liberdade para negá-lo.

Em outras palavras, o Deus anunciado por Paneloux não coincide com o Deus revelado em Jesus Cristo. Enquanto aquele não aceita a indiferença, o Deus que se revela em Jesus se mostra como total doador e como aquele que escolhe morrer, dando ao ser humano a total liberdade de negá-lo e ignorá-lo, caso o queira.

O Deus anunciado por Jesus Cristo é amoroso, e como todo aquele que ama, revela-se na gratuidade. Sendo, portanto, um Deus que se dá gratuitamente, permite-se também, em sua radicalidade amorosa, ser rejeitado.

Que isso seja difícil de se compreender para aqueles e aquelas que desejam um Deus vingativo e irado não temos dúvida. Contudo, é esse aquele a quem Jesus nos convida a chamarmos de pai e sermos como Ele.

Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia e Licenciado em Matemática (UFMG). É coautor do livro: Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras. Editora Saber Criativo. E-mail: fveliq@gmail.com. Site: www.fabricioveliq.com.br.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião 

Domtotal 

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