segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

DOM VILSON BASSO: "SER PRESENÇA HUMANA, SOLIDÁRIA, DE QUEM ESTENDE A MÃO"

Dom Basso visita as vítimas das inundações

O Bispo de Imperatriz (Brasil) relata a situação após as enchentes e o trabalho da Igreja

Se alguém não acreditava nas mudanças climáticas, agora, com o que estamos vivendo em nosso país, é impossível que não tenham consciência disso.

Por meio de representantes públicos católicos, podemos exercer essa força, cobrando, cobrando políticas públicas que preservem a natureza, que preservem o meio ambiente, e todas as políticas sociais que melhorem as condições de vida de nosso povo.

Agora estamos exercendo plenamente nossa maternidade. Uma Igreja que é Mãe, que acolhe, que anima, que dá esperança e que recebe às suas portas, nas suas casas, aqueles que perderam o seu lugar

Nas últimas semanas, o Brasil sofreu as consequências das enchentes, que causaram centenas de mortos, milhares de desabrigados e enormes perdas materiais, com famílias que perderam tudo. Uma das regiões afetadas é o Estado do Maranhão, como conta nesta entrevista Dom Vilsom Basso, bispo de Imperatriz , onde o rio Tocantins já subiu 13 metros.

O bispo brasileiro relata a situação de pessoas que conhece e o trabalho realizado pelas dioceses do Maranhão que estão sendo afetadas. Uma situação que deve levar todos, especialmente os católicos, a refletir e tomar consciência da necessidade de uma conversão ecológica e exigir políticas públicas do poder público .

Diante da dor, Dom Basso destacou a importância de ser uma presença humana, solidária, em meio ao sofrimento das pessoas. Ele também quis deixar uma palavra de esperança, de ser uma Igreja que acolhe na hora do sofrimento. " Uma Igreja que é Mãe, que acolhe, que estimula, que dá esperança e que recebe dentro das suas portas, dentro das suas casas, aqueles que perderam o seu lugar".
Qual é a situação que o Estado do Maranhão e a região onde o senhor é bispo estão vivenciando nas últimas semanas diante das fortes chuvas e enchentes que estão ocorrendo?

Todo o Maranhão é cortado por grandes rios, e aqui em Imperatriz tem o rio Tocantins, que nasce quase em Brasília, e depois de toda essa chuva, está 13 metros acima do nível. Na verdade, cresceu e inundou vários bairros da cidade de Imperatriz, com mais de mil moradores de rua.

Tenho visitado dois grupos de moradores de rua, pessoas que conhecemos, comunidades pobres que acompanhamos. Uma dessas comunidades, Nossa Senhora dos Navegantes, na Beira Rio, apoiamos uma horta comunitária ali, com 29 famílias, uma área grande, e foi completamente alagada.

Tudo o que fizemos no ano passado, inclusive com o apoio de um projeto da REPAM-Brasil e da Diocese de Imperatriz, essas hortas comunitárias estão debaixo d'água. As famílias estão iniciando hortas comunitárias para melhorar suas vidas, vender seus produtos e ter uma melhor qualidade de vida.

Há também o Rio Itapecuru, que nasce na diocese de Balsas e passa pelas dioceses de Imperatriz e Coroatá. E também o rio Grajau, que se junta ao rio Mearim, todos eles cresceram muito e saíram de suas margens. São muitas as famílias afetadas em todo o Estado do Maranhão.
Como a Igreja do Maranhão está tentando responder a essa situação, que passos estão sendo dados como Igreja para ajudar tantas famílias que estão sofrendo?

Até agora, é uma ação de cada diocese. Aqui em Imperatriz, desde o início, realizamos uma campanha de doação de alimentos, roupas, utensílios domésticos, milhares de cestas básicas, conseguimos 40 novas geladeiras através de uma empresa, para famílias que perderam suas geladeiras, e estamos tentando alcançá-los.

Aqui, na diocese de Imperatriz, o trabalho é bem organizado; Fomos a primeira instituição, a Igreja, a assumir essa tarefa. Durante a pandemia, realizamos a campanha “Por um Natal sem Fome”, na qual distribuímos mais de 30 toneladas de alimentos às famílias, e logo em seguida vieram as enchentes.

As demais dioceses, Balsas, Grajau, Caxias, Coroatá e Bacabal, que são as mais afetadas por esses rios que por ali passam, têm essa ação de cada diocese. De 25 a 29 de janeiro teremos a reunião dos bispos do Maranhão, e uma das pautas é uma ação conjunta como a Igreja do Maranhão. No momento, cada diocese está tomando medidas urgentes, mas agora, no final do mês, será lançada uma campanha como Igreja Católica do Maranhão, Regional Nordeste 5, como pauta para o encontro dos bispos do Maranhão no final do mês em São Luís do Maranhão.
Vemos que enchentes e secas, consequências das mudanças climáticas, estão cada vez mais presentes no Brasil e no mundo. Como a Igreja pode ajudar a conscientizar as pessoas, especialmente os católicos, da necessidade de cuidar da nossa Casa Comum?

É um fato, e sou testemunha porque estive alguns dias visitando minha família no sul do Brasil, e de fato há uma grande perda, com perda de produção, de soja, de milho, afetando, porque em No Rio Grande do Sul há muitos pequenos produtores. Isso é um fato, aqui no nordeste, no norte, está chovendo muito e não o suficiente no sul.

Acreditamos que a Igreja tem um papel decisivo. A partir do próprio Sínodo para a Amazônia, essa ecologia integral, temos que cuidar do Planeta para que as pessoas, que são a parte principal, tenham uma vida digna e não passem por todas essas calamidades. Acreditamos que essa consciência global é necessária, mas sobretudo a possibilidade de que cada diocese, cada paróquia, cada comunidade, tome medidas concretas para fazer um mundo melhor na realidade em que vivemos.

Sem dúvida, a Igreja Católica tem um papel decisivo e nós, com a capilaridade que temos em todas as comunidades do país, devemos fazer esse trabalho mais do que nunca. Porque se alguém não acreditava nas mudanças climáticas, agora, com o que estamos vivendo em nosso país, é impossível que não tenham consciência disso. É considerado um momento muito difícil, mas ao mesmo tempo um momento importante para nos conscientizarmos e fazermos a nossa parte.
Ele diz que é impossível não ter consciência disso, mas muitas vezes vemos essa falta de consciência do poder público, que não quer saber nada sobre esse sofrimento. Como podemos nós, da Igreja, promover políticas públicas que realmente exijam e fiscalizem esse cuidado com o meio ambiente e esse compromisso de evitar, na medida do possível, essas catástrofes que ocorrem continuamente no Brasil?

Todo o nosso trabalho como Igreja está na dimensão do Reino, a colherinha de fermento, a pitada de sal, ser sal, ser luz. Em primeiro lugar, a Igreja deve testemunhar que é possível, com a consciência de que somos pequenos, mas é assim que funcionam as coisas do Reino. A primeira parte é que nós, como Igreja, testemunhamos ações que mudam essa realidade para melhor.

Em segundo lugar, acredito que, como organização, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, as regionais, as dioceses, devemos fazer ouvir nossas vozes perante as autoridades. Tanto em nível nacional, estadual e municipal, e exercendo através das lideranças que temos em todas as instâncias, senadores, deputados federais e estaduais, vereadores, que são pessoas da Igreja, pessoas da comunidade, pessoas que têm essa consciência política e ecológico. E por meio deles podemos exercer essa força, exigindo, cobrando políticas públicas que preservem a natureza, que preservem o meio ambiente, e todas as políticas sociais que melhorem as condições de vida do nosso povo.

Vejo a ação em diferentes níveis, no pequeno nível, mostrando que o Reino de Deus anda na semente, na semente de mostarda, na pitada de sal, na colher de fermento. Mostrando isso em um nível mais amplo, cobrando através da força que temos, como nossas organizações da Igreja. E então, através de nossas lideranças que estão nas diferentes instâncias, nacionais, regionais, estaduais, municipais, para alcançá-los, e através deles, essas demandas e essas necessidades. Por meio deles, vejo que de fato é possível exercitar e fazer as mudanças necessárias.
Como bispo, como pastor da Igreja, que mensagem você quer enviar a todas as pessoas afetadas pelas enchentes?

Acabei de visitar pessoas que conheço, da nossa experiência de apoio às hortas comunitárias, que estão sem-abrigo, que perderam tudo. E notei sua alegria, o bispo está aqui. Ele estava na horta comunitária, foi lá, conversou com a gente, nos apoiou, e agora sofrendo, ele está aqui também.

Acredito nisso em primeiro lugar, em ser uma presença humana, solidária, de quem estende a mão, porque isso já é uma força. E então, sim, exercer nossa solidariedade com a organização que temos, e exigir que os poderes públicos exerçam sua competência e responsabilidade.

Quero deixar uma palavra de esperança. Disse-lhes também que a Igreja é assim, acolhe espiritualmente no templo, e agora acolhe também nos momentos de sofrimento. Abrimos uma das nossas paróquias para acolher os sem-abrigo. Agora estamos exercendo plenamente nossa maternidade. Uma Igreja que é Mãe, que acolhe, que anima, que dá esperança e que recebe às suas portas, nas suas casas, aqueles que perderam o seu lugar. É a hora da esperança, é a hora da solidariedade, é a hora de continuar caminhando, porque o Reino de Deus acontece assim, nas pequenas ações e obras de fé, esperança e caridade que realizamos. 

Religion Digital

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