sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

NÃO SUPORTAM A EMPATIA DE FRANCISCO

Papa Francisco, em visita ao campo de refugiados de Lesbos, na Grécia, em 2021 (Andrea Bonetti/AFP)
O papa que revoluciona nos gestos, na maneira de se comunicar e atrai inimigos por insistir numa religiosidade humanizadora

Mirticeli Medeiros*

Neste último domingo (6), Francisco concedeu uma entrevista ao programa de televisão ‘Che tempo che fa’, exibido aos domingos, ao vivo, pela emissora italiana RAI, e surpreendeu a todos ao rebater a pergunta do apresentador Fabio Fazio, que é um fã declarado do papa argentino.

Quando o pontífice foi questionado a respeito do que ‘precisa suportar’, estando à frente da Igreja Católica, deu uma resposta que pegou os telespectadores de surpresa.

‘É até forçado responder a esse tipo de pergunta, já que, pensando na situação de tantos irmãos e irmãs que estão sem salário e na pobreza, nem me sinto confortável de responder ‘o que preciso suportar’, disse.

Na mesma entrevista, ele também revelou que, quando confessa algum fiel, pergunta ao penitente se, ao dar esmola, ele pega na mão da pessoa em situação de rua ou olha nos olhos dela. E reforçou que o modelo de caridade do cristianismo continua sendo a parábola do bom samaritano.

Para Francisco, um cristianismo sem comprometimento não convence. É preciso mostrar, com a vida, que essa é a religião do ‘verbo encarnado’; não simplesmente uma filosofia de vida, um rito ou uma lista de preceitos.

O Papa alerta para o risco de criarem um cristianismo paralelo, totalmente apartado da própria raiz, que é o próprio Jesus Cristo. Mas, para alguns, os gurus da internet ou ‘teólogos da moda’ têm muito mais a ensinar que o próprio mestre. Cria-se, portanto, uma religiosidade esteticamente impecável, mas pobre de humanidade e de princípios, já que há uma distorção das próprias virtudes teologais, as quais são transformadas num mero slogan.

Na internet, vemos gente que enche a boca para falar do 'depósito da fé’, mas reduz a própria fé a um rito; que fala de esperança, mas cria teses apocalípticas para dividir os próprios católicos; que reforça que a igreja é a maior instituição de caridade do mundo (e de fato o é), mas se esquiva da responsabilidade de fazer o bem a quem precisa, refugiando-se na velha desculpa da ‘meritocracia’, como se o pobre fosse responsável pela própria condição, como diz o Santo Padre.

O pontificado de Francisco, se observarmos bem, se coloca na brecha para tentar impedir que saqueiem o cristianismo de novo, como aconteceu em outras épocas. Sim, o cristianismo foi saqueado por jogos de interesse e de poder e pelas várias instrumentalizações políticas que ocorreram ao longo da história.

Não por acaso, o líder da Igreja Católica vê com preocupação a ascensão dos novos populismos, porque sabe que o rosário, a cruz e as devoções serão, cada vez mais, transformados em baluartes de cruzadas contemporâneas, como já tem acontecido. E pior: quem está à frente dessas ‘batalhas em nome da fé’ muitas vezes nem são cristãos, mas são até capazes de receberem o batismo do dia para a noite, se considerarem oportuno.

A empatia de Francisco incomoda porque quebra um ciclo vicioso e ‘rentável’: o de sustentar a imagem de uma igreja triunfal e autorreferencial que pouco se importa com as vicissitudes humanas. É por isso que essa oposição ao Concílio Vaticano II, ao Papa e ao ecumenismo, na maioria das vezes travestida de zelo, esconde uma grande necessidade de manter uma estrutura confortável, que satisfaça amplamente o interesse de certos grupos.

E não nos esqueçamos que, na época das redes sociais, tudo é monetizado e se torna produto. O depósito da fé, o patrimônio espiritual e a doutrina da Igreja viraram meros produtos. Vendem suas niquinharias ‘opositoras’ diante do templo, sem se preocuparem mais com Jesus, que munido do seu chicote, condena a profanação da religião. Estão diante do templo, mas não são desse templo. Suas almas foram junto com essa ‘mão invisível do mercado’, que tudo rege, que tudo transforma e sob a qual eles se refugiam.

Enquanto isso, o Papa pede empatia, toca, se aproxima, se abaixa para olhar nos olhos de quem sofre. E acredita piamente que única mão invisível capaz de sustentá-lo é a de Deus. Nenhuma outra.

Dom Total

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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