terça-feira, 28 de junho de 2022

VIVER A EUCARISTIA DE FORMA ÉTICA: UM MODO DE NÃO TRAIR JESUS

Comemos de um mesmo pão e bebemos de um mesmo cálice, comungamos da vida mesma do Senhor Jesus, de tal modo que nosso compromisso de fidelidade não deve se tornar traição
A Igreja vive da eucaristia, pois ela ocupa em lugar central na maneira de expressão da fé Foto (Pixabay)

Felipe Magalhães Francisco*

"Eis o Corpo de Cristo!": é com esta apresentação que os fiéis católicos e católicas recebem o Pão Eucarístico, cada vez que comungam. A resposta de cada fiel, "amém!", é também uma profissão de fé, de alguma forma: crê-se, eclesialmente, que aquela partícula seja o Corpo sacramental do Senhor, dado como verdadeira comunhão transformadora naquele que se está manducando. Há, porém, muitas maneiras como os católicos e católicas compreendem a eucaristia, e a consequente presença de Cristo. Algumas dessas compreensões são mais ortodoxas que outras; nalguns casos, essas compreensões são verdadeiramente heterodoxas.

De toda forma, ortodoxamente compreendida ou não, percebe-se mesmo que a Igreja vive da eucaristia, pois ela ocupa em lugar central na maneira de expressão da fé. Em primeiro lugar, Eucaristia é o nome que atribuímos a um dos sete sacramentos; mas, também, convencionou-se chamar o pão e o vinho abençoados de eucaristia. As duas compreensões estão, de todo modo, inter-relacionadas, afinal, pois é na Celebração Eucarística onde pão e vinho são transformados em Corpo e Sangue do Senhor. A eucaristia é uma forma privilegiada de comunhão com a vida de Jesus Cristo.

Essa comunhão com a vida do Senhor tem um desdobramento ético-espiritual: comungar do pão e do vinho eucarísticos não é como tomar um comprimido analgésico, tampouco uma pílula mágica. Trata-se de um compromisso existencial, no qual assumo, pela fé, viver segundo o Cristo, até que minha humanidade seja realizada ao passo de sermos santificados plenamente, por força do Espírito do Senhor. Para além, pois, de o "amém" do fiel, ao receber a comunhão, ser uma profissão de fé, é também um assentimento: assume-se um compromisso de comunhão com o Senhor.

Na ocasião da última ceia de Jesus com seus discípulos, uma cena chama a atenção: os discípulos, diante do anúncio de Jesus de que seria traído, perguntam, cada um, se acaso seria eles. A resposta de Jesus é bastante interessante: "O que pôs comigo a mão no prato [...]" (Mt 26,23). Colocar mão no mesmo prato, aqui, significa compartilhar da vida, participar da intimidade. Logo, qualquer um daqueles discípulos poderia tornar-se um traidor de Jesus que, em todo caso, seria trair a causa do Mestre. A resposta de Jesus se mostra ainda mais dramática ao traidor e ao leitor: o traidor tinha consciência do combinado de traição que havia feito; o leitor já sabe, conforme narrado por Mateus, anteriormente (26,14-16), que seria Judas, o Iscariotes, o traidor, e qual havia sido o combinado. Esse tom dramático nos ajuda a perceber a gravidade da ação de Judas: ele traiu aquele com quem nutria intimidade, e nada mais simbólico de isso se fazer ver, num contexto de refeição, portanto eucarístico. A nós, discípulos e discípulas de Jesus, hoje, fica a interpelação ética: comemos de um mesmo pão e bebemos de um mesmo cálice, comungamos da vida mesma do Senhor Jesus, de tal modo que nosso compromisso de fidelidade não deve se tornar traição.

No Dom Especial da Semana, dedicamo-nos a refletir sobre a ética que nasce da eucaristia, como chamamento à fidelidade evangélica com a cauda de Jesus. No primeiro artigo, Transformados n'aquele que recebemos, Daniel Reis nos ajuda, a partir da tradição litúrgica, a compreender a importância da comunhão com a vida do Senhor. Francisco Thallys Rodrigues, no artigo A dimensão ética da eucaristia, chama a atenção para o compromisso nascido de nossa participação na mesa do Senhor, que se desdobra na fraternidade que gera justiça. Por fim, Renato Quezini traz o tema da espiritualidade cristã, no artigo Os desafios de hoje para a vivência da espiritualidade cristã centrada na eucaristia.

Boa leitura!


Dom Total

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). É co-autor de Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras (Saber Criativo, 2020). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com. 

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