terça-feira, 19 de julho de 2022

UMA PEREGRINAÇÃO PENITENCIAL




Em 1° de abril, o Papa Francisco recebeu no Vaticano delegações de Povos Indígenas do Canadá. (Vatican Media)EDITORIAL

Uma peregrinação penitencial
A peculiaridade da próxima viagem do Papa Francisco ao Canadá: um gesto concreto de proximidade com os povos indígenas.

ANDREA TORNIELLI

Nunca havia acontecido, durante seus quase dez anos de pontificado, que Francisco tenha definido alguma viagem internacional sua como "peregrinação penitencial". Precisamente esta definição, que o Papa usou no Angelus de domingo, 17 de julho, faz compreender as peculiaridades da já próxima viagem ao Canadá. Em primeiro lugar, não uma viagem a um país, nem uma visita com o objetivo principal de encontrar as comunidades católicas, mas sim um gesto concreto de proximidade com os povos indígenas que habitam aquela terra e que sofreram as consequências das atitudes colonialistas.

Um dos males do colonialismo é representado pela tentativa de apagar as culturas dos povos originários, realizado nas chamadas "escolas residenciais", institutos que tentaram "educar" e "instruir" os filhos dos indígenas com duras disciplinas, separando-os de suas famílias. Essas escolas, que registravam uma taxa de mortalidade muito alta, haviam sido criadas pelo governo canadense, que as financiava, mas sua gestão era confiada a realidades das Igrejas cristãs e, portanto, também às Ordens religiosas católicas.

O caminho de cura e reconciliação começou há algum tempo e um passo fundamental foram os encontros realizados em Roma entre o final de março e o início de abril, quando Francisco antes encontrou separadamente e depois todos juntos, os grupos das First Nations (“Primeiras Nações”), dos Métis (“mestiços”) e dos Inuit, expressando-lhes “indignação e vergonha” pelo ocorrido. Os povos indígenas se sentiram acolhidos e sobretudo ouvidos. Mas desejavam muito que o bispo de Roma visitasse suas terras e pedisse perdão.

A chave de leitura da viagem está, portanto, inteiramente na atitude penitencial que caracterizará seus momentos marcantes. É a mesma atitude que Bento XVI sugeriu em 2010 diante do escândalo dos abusos de menores; o mesmo que São João Paulo II propôs durante o Jubileu de 2000 para a "purificação da memória", quando pediu "um ato de coragem e humildade no reconhecimento as faltas cometidas por aqueles que levaram e levam o nome de cristãos" , fundado na consciência de que “por causa daquele vínculo que nos une uns aos outros dentro do Corpo místico, todos nós, embora não tendo responsabilidade pessoal por isso e sem nos substituirmos ao juízo de Deus — o único que conhece os corações —, carregamos o peso dos erros e culpas de quem nos precedeu."

Saber ouvir colocando-se no lugar das vítimas e suas famílias, compartilhar sua dor e compreendê-la, responder com gestos de proximidade e não apenas com análises históricas ou a frieza das estatísticas, é profundamente cristão. O Sucessor de Pedro vai "em nome de Jesus para encontrar e abraçar" como pastor de uma Igreja que não se envergonha de mostrar-se humilde e de pedir perdão. 

Vatican News 

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