quinta-feira, 18 de agosto de 2022

CIDADÃOS DO CÉU, CIDADANIA NA TERRA!

A coerência entre ser cristão e ser cidadão se apresenta na tarefa da recomposição da cidadania

• O ser cristão e o ser cidadão não são duas pessoas separadas | Pixabay

Élio Gasda*

“Não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura” (Hebreus 13,14).

A questão da cidadania celestial e sua relação com a cidadania terrena acompanha o cristianismo desde o seu surgimento.

O que a cidadania celestial tem a ver com a cidadania terrena?

O que significa viver como cidadãos do céu na sociedade terrestre?

Cidadania é conceito político e conceito teológico. Ser cidadão aponta para uma identidade, uma forma de vida, de atitude e comportamento nas relações humanas. A cidadania, portanto, nos remete a questão mais ampla da relação entre fé, ética e política.

No Cristianismo não há Deus sem Cristo e nem fé sem obras (Tiago 2, 26). O vínculo entre as duas cidadanias está em Jesus Cristo e seu mandado aos discípulos: “Buscai em primeiro lugar o Reino e a sua justiça” (Mateus 6, 33) em todas as esferas da vida.

Ser cristão e ser cidadão é fazer aquilo que Jesus ensina nas Bem-aventuranças (Mateus 5, 1-12). Nelas há uma descrição da identidade do cidadão do Reino: ser pobre, reagir com mansidão, solidarizar-se com os entristecidos, buscar a justiça com fome e sede, agir com misericórdia, manter o coração limpo de tudo o que impede o amor ao próximo, promover a paz, sofrer perseguição por causa da justiça.

O cidadão do céu tem fome e sede de justiça aqui na terra (Mateus 5,6)! A dimensão política do cristão está no coração do Evangelho. Ser advogada da justiça e defensora dos pobres e humilhados faz parte da identidade da Igreja. O compromisso político é uma expressão qualificada e exigente do compromisso cristão ao serviço dos outros (Paulo VI, Octogesima adveniens, n. 46).

A fé, como movimento em busca da Verdade e do Amor, não se esgota na política. A busca da Verdade é o primeiro passo em direção à justiça. A justiça é a raiz da verdade. “O Amor é força extraordinária que impele as pessoas a comprometerem-se no campo da justiça e da paz (Bento XVI, Caritas in veritate, n. 1). Amor, Verdade e Justiça constituem uma unidade em Deus.

A lei fundamental da humanização e da transformação do mundo é o mandamento do amor. Ser cristão é permanecer nessa Verdade do Evangelho: “Como eu vos amei, vós também: amai-vos uns aos outros (João 13,34).

Cristo é a Verdade que se faz carne para que todos tenham vida (João 10,10). A Verdade tem na mentira seu maior inimigo. Verdade é vida. Mentira é morte. Jesus dedicou sua vida combatendo as forças da violência, da injustiça e da mentira.

O compromisso com o amor, a justiça e a verdade se concretiza na defesa da dignidade humana e no empenho pelos direitos sociais, econômicos e políticos. O estabelecimento da cidadania a todas as pessoas é uma questão de justiça e de fé.

É urgente ampliar a representação de políticos mais comprometidos com as demandas da população que clama por mais vida: alimentação, educação, trabalho, moradia, saúde. É para isso que os cristãos, como cidadãos, são chamados a participar na vida política da sociedade (Bento XVI. Deus Caritas est, n. 29).

O ser cristão e o ser cidadão não são duas pessoas separadas. A coerência entre ser cristão e ser cidadão se apresenta na tarefa da recomposição da cidadania, trazer cada pessoa ao mundo dos direitos – direitos humanos, civis, sociais, políticos! (CNBB: Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade).

A construção da cidadania e da sinodalidade é um só movimento. Promover os direitos humanos fundamentais a todos os filhos de Deus é sinal que aponta para a cidade celeste. É semente do Reino que será elevada à plenitude.

“Todos os valores da dignidade humana, da comunhão fraterna e da liberdade, fruto da natureza e do nosso trabalho, depois de os termos difundido na terra, no Espírito do Senhor e segundo seu mandamento, voltaremos de novo a encontrá-los, mas então purificados de qualquer mancha, iluminados e transfigurados, quando Cristo entregar ao Pai o reino eterno e universal: reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz. Sobre a terra, o reino já está misteriosamente presente; quando o Senhor vier, atingirá a perfeição” (Gaudium et spes, n. 39).

“Ai de vocês, que desprezam o mais importante da lei: justiça, misericórdia, fidelidade” (Mateus 23,23).

DomTotal

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