sexta-feira, 31 de março de 2023

ZOLLNER DEMITE-SE E PÕE EM XEQUE COMISSÃO PARA A PROTEÇÃO DE MENORES

O padre jesuíta Hans Zollner, ao participar no colóquio organizado pela Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais Contra as Crianças na Igreja Católica em Portugal, em Lisboa, em 10 de Maio 2022. Foto © Ecclesia/HM 
 Jorge Wemans
O homem que nos últimos anos era o rosto visível da luta do Vaticano contra os abusos sexuais no interior da Igreja Católica, o padre jesuíta Hans Zolner, demitiu-se do cargo que ocupava há nove anos na Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores (CPPM) e tornou pública uma cerrada crítica ao modo de funcionamento daquele organismo do Vaticano.
Tido como um dos principais aliados do Papa Francisco na denúncia dos abusos sexuais e na condenação dos abusadores, o alemão Hans Zollner escreve num comunicado datado desta quarta-feira, 29 de março, que “nos últimos anos” foi ficando “cada vez mais preocupado com o modo como a comissão procurou alcançar” o objetivo de “proteger as crianças e as pessoas mais vulneráveis”, preocupações que incidiam “particularmente nas áreas da responsabilidade, no cumprimento das normas, na prestação de contas e na transparência” dos procedimentos e decisões.
Nos organismos que formam a cúpula do Vaticano é muito raro um pedido de demissão ser divulgado pelo próprio. Ainda mais raro que o seja através de um comunicado público com críticas contundentes ao organismo em causa. O comunicado assinado pelo padre Zollner é, deste modo, muitíssimo insólito e espelha um profundo desagrado com o funcionamento da Comissão que não pode ser apenas seu, mas se advinha partilhado por outros altos funcionários vaticanos.
Referindo-se “a problemas que têm de ser abordados urgentemente” e que justificam o seu pedido de demissão, Zollner denuncia três faltas principais: a falta “de clareza relativamente ao processo de seleção de membros e de funcionários e aos seus respetivos papéis e responsabilidades”; a falta de “transparência no modo como as decisões são tomadas”; e a falta de clareza sobre “como é que os fundos são usados no trabalho [da Comissão]”. A estas questões, o padre jesuíta junta o facto de ainda não terem sido divulgadas “quaisquer regulamentações que orientem a relação entre a Comissão e o Dicastério para a Doutrina da Fé, desde que a Comissão foi colocada dentro do Dicastério no último mês de junho”. “A proteção das crianças e das pessoas vulneráveis tem de estar no coração da missão da Igreja Católica”, acrescenta.
Num comunicado posterior, mas difundido neste mesmo dia 29 de março, o presidente da CPPM, o cardeal americano Sean O’Malley, trata o pedido de demissão de Zollner como estando ligado à sua recente nomeação como consultor da Diocese de Roma e tece os elogios da praxe ao trabalho por ele desenvolvido na Comissão.
As críticas ao mau funcionamento da CPPM e à sua recente submissão ao Dicastério para a Doutrina da Fé, tem vindo em crescendo nos últimos meses. Em novembro, recorda o National Catholic Reporter também nesta quarta-feira, a irmã franciscana Jane Bertelsen, que pertenceu à Comissão, escreveu no jornal britânico The Tablet que “um estilo de trabalho colaborativo e sinodal deixou de estar presente durante os últimos meses”. No dia 28 desse mesmo mês de novembro, a baronesa Sheila Hollins, membro fundador da CPPM, mostrou-se, numa conferência proferida perto de Londres, muito cética quanto à capacidade da Comissão conseguir realizar uma auditoria de qualidade aos 114 relatórios sobre o estado da proteção de menores nos seus países enviados pelas conferências episcopais de todo o mundo.
Mas também o próprio Zollner foi alvo de crítica, agora relembradas pelo jornal Silere non possam, que o acusa de não ter agido correta e expeditamente no caso das denúncias contra o jesuíta Rupnik [ver 7MARGENS].
Além de colocada, em junho de 2022, sob tutela do Dicastério para a Doutrina da Fé, a CPPM foi também profundamente renovada em setembro de 2022 com 10 novos peritos e a saída de igual número de membros.
 Fonte: setemargens


 

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